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Discussão - A morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstói)
#4
Li o livro novamente e vou aproveitar que o conteúdo está fresco na cabeça e tecer mais alguns comentários que achei interessantes. Dessa vez, sobre o enredo principal mesmo.

Já no primeiro capitulo a gente vê algo muito interessante, já é falado direto do velório. O livro começa pelo fim, o que também é simbólico. E o amigo mais próximo que ele tinha foi para lá assistir, mas com pressa de ir embora para não perder o jogo de cartas que teria depois. Fingia demonstrar um sentimento de tristeza até exagerado na hora enquanto pensava se conseguiria pegar a vaga do Ivan ou se outro pegaria e o sentimento de alívio de que a morte chegou para Ivan e não para ele. Enquanto a mulher do Ivan o chama no privado mas pra pedir se tinha como conseguir que ela pegasse uma pensão maior. Já era boa, mas ela queria tentar pegar tudo que pudesse e não deixar nada passar, enquanto ainda se faz de vítima e se coloca como guerreira por ter suportado os gritos do marido escondida no canto mais afastado da casa enquanto ele morria em agonia sozinho. 

Esse é o primeiro capítulo que mostra a visão dos outros sobre o Ivan. E depois foca totalmente no Ivan e em sua história desde o início. Aqui eu vi uma crítica boa contra o funcionalismo público. Tinha um bom emprego, era respeitado, chegou ao topo da carreira e ganhava um bom salário. No início ele lutava para crescer dentro do funcionalismo, mas aí depois de algum tempo, ele vai se acomodando, até se acomodar de vez e começa a rejeitar promoções para não ter que sair da sua cidade e do seu conforto.

E critica muito o fato de ficar se fazendo aquilo que os outros sempre esperam da gente enquanto deixam de fazer as coisas que realmente tem vontade de fazer. E só no fim da vida que param pra pensar se valeu a pena ou não.

A própria morte dele foi por um motivo banal, o que torna a mensagem mais interessante, porque você para e pensa que é algo que pode acontecer com você também a qualquer momento.

Tem muitos pontos interessantes, mas vou me ater só a mais um ponto que vi para depois deixar para debater sobre o que os outros forem comentando.

O livro se torna genial quando começa a trabalhar o drama da morte, a negação, a aceitação, o remorso, o desespero, e começa a repassar toda a sua vida. Ele vai percebendo como desperdiçou a sua vida e tentando descobrir como ele poderia ter vivido diferente e o inconformismo de ver os outros não dando a mínima porque suas vidas continuariam e até exclama em pensamento para si mesmo: "Vocês vão morrer também, seus tolos! Não conseguem ver?".

É interessante como a morte é um assunto desconfortável para a maioria das pessoas e evitam isso a todo custo só parando para refletir nela no final da vida. No livro seus familiares, amigos e até o médico mentiam para ele sobre isso. Todos negavam a morte e diziam que ia ficar tudo bem mesmo sem acreditarem nisso e isso o irritava imensamente. Era o mesmo comportamento que fazem quando uma pessoa peida e está fedendo. Aquela mentira e disfarce na frente da pessoa enquanto pelas costas e longe dela falam a verdade nua e crua.

Liev Tolstói Escreveu:O que mais atormentava Ivan Ilitch era o fingimento, a mentira, que por alguma razão eles todos mantinham, de que ele estava apenas doente e não morrendo e que bastava que ficasse quieto e seguisse as ordens médicas que ocorreria uma grande mudança para melhor. Mas ele sabia que nada do que eles fizessem teria outro resultado que não mais agonia, mais sofrimento e a morte. E a farsa desgostava-o profundamente: atormentava-o o fato de que se recusassem a admitir o que eles e ele próprio bem sabiam, mas insistiam em ignorar e forçavam-no a participar da mentira. Esse fingimento que se estabeleceu em torno dele até a véspera de sua morte, essa mentira que só fazia colocar no mesmo nível o solene ato de sua morte, suas visitas, suas cortinas, seu caviar para o jantar... eram-lhe terrivelmente dolorosos.

E muitas vezes, quando estavam encenando sua farsa para o bem dele, achavam, ele por pouco não se punha a gritar: “Parem de mentir! Vocês sabem, eu sei e vocês sabem que eu sei que estou morrendo. Portanto, pelo menos parem de mentir sobre o fato!”. Mas nunca chegou a ter coragem para isso. O horrível, terrível ato de sua morte, ele via, estava sendo reduzido por aqueles que o rodeavam ao nível de um acidente fortuito, desagradável e um pouco indecente (mais ou menos como se comportam com alguém que entra em uma sala de visitas cheirando mal), e agiam assim em nome do mesmo decoro ao qual ele próprio subjugara-se a vida inteira. Notava que ninguém se compadecia dele porque ninguém estava com disposição nem mesmo de pensar em sua situação.

Foi muito conveniente ler esse livro depois do Meditações de Marco Aurelio porque o imperador via a morte de forma completamente oposta e estava muito bem consigo mesmo com o fato de saber que a sua condição final seria a morte e o aniquilamento total de seus pensamentos e que tudo que fez passaria e ninguém teria memória. E agora a gente lê sobre o desespero completo de uma pessoa comum que não está preparada para deixar a vida. Isso é inevitável, mas da forma como vivemos hoje de que forma vamos encerrar a nossa existência? Em desespero total ou em completa paz?
“A maior necessidade do mundo é a de homens — homens que se não comprem nem se vendam; homens que, no íntimo de seu coração, sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus.” Educação, Pág 57.
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RE: Discussão - A morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstói) - de Libertador - 04-08-2020, 10:32 AM

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