(02-08-2020, 01:31 PM)hjr_10 Escreveu: A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói, foi meu primeiro contato com a literatura russa. E para um primeiro contato, ler logo uma das melhores novelas russas não poderia ter sido melhor.
Esse é o primeiro livro russo que estou lendo. E tirando os nomes complicados e fáceis de confundir, a obra é genial. Li que é considerado como uma das novelas mais perfeitas já escritas da história. Achei o título exagerado de mais, mas justamente por isso votei no livro, para ver se era bom assim mesmo.
Achei impressionante como ele consegue pegar detalhes da vida que está visível a todos mas que não prestamos atenção ao ponto de conseguir mensurar e ordenar como ele faz. É uma habilidade de observar singular somado a habilidade incrível de conseguir transmitir isso na escrita. É só para as mentes brilhantes.
(02-08-2020, 01:31 PM)hjr_10 Escreveu: Chinasky, Ilitch, Samsa, e por aí vai. Todos têm pontos em comum: desprezo, falta de humanidade, solidão.
A agonia de morte dele e o desprezo da família também me lembrou muito o livro Metamorfose do escritor Franz Kafka.
É impressionante como muitas vezes coisas que são importantes pra gente são vistas pelos outros como completamente ridículas. Como disse Salomão:
Salomão Escreveu:O coração conhece a sua própria amargura, e o estranho não participará no íntimo da sua alegria. Provérbios 14:10
Não adianta, no final das contas, só você sabe o que realmente passou e como isso te afeta. Todo mundo tratava sua agonia e desespero de morrer como algo dramático e exagerado. Afinal, ele só ia morrer não é mesmo? As vidas dos outros iriam continuar sem ele, então, que morresse logo e parasse de drama para não atrapalhar a vida dos outros, e esse comportamento da sua própria família magoava imensamente esse patriarca.
Vou tentar comentar aqui algo que não se relaciona com o ponto central do livro que é o desespero por conta da morte, mas os aspectos secundários.
Outro ponto da obra que achei interessante é a mulher dele Praskovya Fiodorovna Mikhel, uma mulher bem bacana e bonita, mas depois de um ano de casados ela começou a transformar a vida dele em um inferno. Incrível como tem que saber escolher, logo no início dizia que ela tinha o comportamento mais espirituoso de seu circulo. Isso já dá indícios do que estava por vir.
E ele casou porque poderia ser bom também para a sua imagem e ela era a escolha que seu circulo social aprovava.
Como segue o trecho:
Liev Tostói Escreveu:Praskovya Fiodorovna vinha de boa família, não era nada feia e tinha algumas posses. Ivan Ilitch certamente aspirava a um casamento melhor, mas mesmo esse não era mau arranjo. Ele tinha um bom salário, ao qual a renda dela, esperava, viria somar-se. Ela era bem relacionada e uma jovem doce, bonita, comme il faut. Dizer que Ivan Ilitch estava casando apaixonado e porque sua noiva partilhava de suas opiniões seria tão falso quanto dizer que ele só se casava porque seu círculo social aprovava a escolha. Ivan Ilitch considerava sobretudo dois aspectos: o casamento lhe traria satisfação pessoal ao mesmo tempo em que estaria fazendo o que era
considerado correto pelas classes mais altas.
E aqui o começo das brigas sem motivo nenhum:
Liev Tostói Escreveu:Sua esposa, sem razão alguma, ou pelo menos assim lhe parecia, por puro capricho, como ele dizia, começou a perturbar a agradável e decente ordem de sua vida. Sem que houvesse qualquer tipo de justificativa, Praskovya começou a mostrar-se ciumenta, a exigir que ele dedicasse toda sua atenção a ela, punha defeitos em tudo e fazia as mais desagradáveis e constrangedoras cenas.
Liev Tostói Escreveu:Mas houve um dia em que sua mulher o atacou tão violentamente e daí em diante passou a atacá-lo continuamente com palavras tão vulgares a cada vez que ele recusava-se a atender suas exigências, claramente determinada a não parar até que ele se rendesse ou, em outras palavras, concordasse em ficar em casa e entediar-se tanto quanto ela, que Ivan Ilitch viu-se derrotado. Só então deu-se conta de que o casamento – pelo menos com Praskovy a – estava longe de ser só fonte de prazeres e alegrias, e, ao contrário, freqüentemente infringia as leis do conforto e adequação e que, portanto, era necessário proteger-se. E Ivan Ilitch pôs-se a procurar os meios de proteção. Sua posição era o aspecto de sua vida que verdadeiramente a impressionara e ele, então, passou a usar sua posição e as obrigações dela decorrentes em sua luta por independência.
Liev Tostói Escreveu:tudo isso contribuiu para tornar mais urgente para ele a construção de um muro que o isolasse da vida familiar. À medida que sua esposa ia ficando mais irritada e exigente, Ivan Ilitch ia transferindo o centro de gravidade de sua existência da família para o trabalho. Tornava-se cada vez mais absorvido por suas tarefas oficiais, com uma ambição que jamais tivera.
E ele vai descrevendo como as discussões vão ficando cada vez maiores e mais frequentes e que poucas vezes tinham pequenos momentos de paz. Mas eram breves e tudo voltava com força total.
Ele escreveu tudo isso em 1880, mas parece que está escrevendo a vida dos meus amigos de infância que se casaram a alguns anos e a mulher virou uma criatura repugnante e controladora infernizando a cabeça deles de todos os jeitos possíveis, e eles tentam se refugiar no trabalho e quando terminar o serviço tentam ficar no barzinho em vez de voltar para casa como uma tentativa de respirar um pouco de liberdade e paz que não conseguem encontrar em suas próprias casas.
Isso quebra aquela ilusão que o pessoal (eu incluso), de vez em quando tem, de achar que antigamente as coisas eram melhores, dá pra ver que era tudo a mesma palhaçada de sempre, mulher ingrata e reclamona, homens tentando se refugiar no trabalho, amigos interesseiros, você só é o que vale para os outros e quando vai morrer todos não veem a hora de pegar o seu lugar e as suas coisas. E o mesmo medo de morrer e insegurança sobre o que virá depois de quem está indo para a terra do silêncio.
Menos Marco Aurélio da última análise aqui do clube do livro, que não tinha medo de morrer e até apreciava a expectativa de saber o que viria depois. Mas, o cidadão comum, no geral, tem grande pavor do desconhecido e da morte.
Dá pra ver que esse medo e esses maus atributos femininos e masculinos estão sendo potencializados com as politicas e estilo de vida atuais, mas sempre existiram em grau elevado e os bons escritores conseguiam transmitir isso com habilidade. Como é o caso do Liev Tostói
Outro ponto é o fato da mulher começar a se colocar com o tempo como vítima e a coloca-lo como um opressor que a maltratava quando ele começou de certa forma a realmente ficar irritado facilmente e agir de forma severa, coisa que ela mesmo causou, e aí ela ficava desejando a morte dele enquanto convivia junto. Uma situação comum e assustadora. Segue em spoiler abaixo.
Liev Tostói Escreveu:O casal brigava cada vez com mais freqüência e há muito que toda a calma e o prazer da vida haviam caído por terra e era com dificuldade que conseguiam manter as aparências como antes. Havia repetidas discussões, até que, no mar da discórdia restaram muito poucas ilhas nas quais marido e mulher conseguiam se encontrar sem que houvesse uma explosão. E Praskovy a dizia, agora não sem motivo, que seu marido tinha um temperamento difícil. Com seu característico exagero, sustentava que ele sempre havia sido assim e fora preciso muita paciência de sua parte para suportar a situação durante esses vinte anos.
Liev Tostói Escreveu:No início ela respondia no mesmo tom e dizia-lhe coisas desagradáveis, mas depois que uma ou duas vezes, bem no início do jantar, ele entrou em tal delírio de repente, ela achou que se devia a alguma reação física que acontecia ao comer e resolveu conter-se e não reagir. Apressou-se em terminar a refeição.
Praskovy a orgulhou-se muito por esse exercício de autocontrole. Tendo chegado à conclusão de que o marido possuía um temperamento assustador e tornara sua vida miserável, começou a ter pena de si mesma e, quanto mais pena tinha de si mesma, mais detestava o marido. Começou a desejar que morresse, ainda que não o quisesse morto porque com ele iria-se também o salário dele. E isso provocava-lhe ainda maior irritação contra ele. Julgava-se terrivelmente infeliz justamente porque nem mesmo sua morte poderia trazer-lhe alívio e, embora disfarçasse sua irritação, a amargura sufocada só fazia aumentar sua raiva.
O bacana de ver no livro é que o Ivan era o cidadão exemplar, um cara que se dedicava no trabalho, que tentava ser o mais profissional possível, alcançando o auge da carreira, vivendo com a alta sociedade e apreciado por seus pares e coisas do tipo. Vendo os casos no tribunal de forma imparcial e fria como apenas casos e não com vidas por trás. E quando foi tratado da mesma forma pelo seu médico ele ficou se sentindo injustiçado e que o tratamento era desumano. Tem vezes que a pessoa só vai sentir o dano que causa aos outros quando é colocado na situação oposta, se não for, não consegue entender. E tem casos que mesmo assim não é capaz de entender. É uma falta de empatia total.
Segue o resumo do trecho para quem tiver curiosidade:
Liev Tostói Escreveu:Seguiu-se tudo dentro do esperado, como sempre acontece. Houve o habitual período na sala de espera, a atitude importante assumida pelo médico – ele conhecia bem aquele ar de dignidade profissional; ele próprio o adotava no Tribunal –, os exames e as perguntas que exigiam respostas que levavam a conclusões óbvias e obviamente desnecessárias e o olhar grave, que queria dizer: “Deixe tudo conosco e nós resolveremos as coisas, nós sabemos tudo do assunto e podemos resolvê-lo para você, como faríamos com qualquer outra pessoa”. O procedimento todo era igual ao dos Tribunais. Os ares que ele adotava no Tribunal em benefício do prisioneiro, o médico adotava agora em relação a ele.
Liev Tostói Escreveu:O médico disse-lhe que este e aquele sintoma indicavam que isto ou aquilo iam mal com o paciente por dentro, mas se esse diagnóstico não fosse confirmado pelos exames clínicos disto ou daquilo, então chegaremos a esta ou aquela conclusão. Se chegarmos a esta ou aquela conclusão, então... e assim por diante. Para Ivan Ilitch só importava saber uma coisa: o seu caso era sério ou não era? Mas o médico ignorou essa pergunta tão fora de propósito. Do ponto de vista do médico tratava-se de um detalhe que não merecia ser levado em consideração: o problema realmente era avaliar todas as probabilidades e decidir entre um rim flutuante ou apendicite. Não era uma questão de Ivan Ilitch viver ou morrer, mas de decidir se era rim ou apêndice. E nesse caso o médico inclinava-se mais em favor do apêndice, com a ressalva de que a análise da urina poderia indicar uma pista totalmente nova e então toda a questão teria de ser reavaliada. Tudo isso era, em menor proporção, exatamente o que Ivan Ilitch fizera de modo tão brilhante mil vezes ao lidar com as pessoas no Tribunal. O médico concluiu tudo brilhantemente, olhando triunfante por sobre os óculos para o acusado. A partir da fala do médico, Ivan Ilitch concluiu que as coisas não estavam bem, mas que para o médico e provavelmente para todas as outras pessoas isso não faria a menor diferença, enquanto que para ele era simplesmente terrível. E essa conclusão foi dolorosa, despertando-lhe um grande sentimento de autopiedade, e de amargura em relação ao médico que não se importava nem um pouco com uma questão tão importante.
Mas não disse nada, levantou, colocou o dinheiro da consulta em cima da mesa e falou com um suspiro:
– Nós, os doentes, sem dúvida fazemos muitas vezes perguntas inadequadas. Mas, diga-me, de modo geral, assim por cima, esses sintomas lhe parecem graves ou não?
O médico olhou-o severamente por cima do monóculo, como se dissesse: “Pedimos ao réu que se atenha a responder o que lhe foi perguntado ou serei obrigado a fazer com que o retirem da sala”.
– Eu já lhe disse tudo que julgava necessário dizer – respondeu o médico –, os exames devem dar mais detalhes. – E indicou-lhe a porta.
“A maior necessidade do mundo é a de homens — homens que se não comprem nem se vendam; homens que, no íntimo de seu coração, sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus.” Educação, Pág 57.