05-11-2017, 03:04 PM
(Esta publicação foi modificada pela última vez: 05-11-2017, 03:05 PM por Staff.)
1. A ilogicidade
Entre os sentimentos passionais do homem e da mulher há um desencontro perpétuo oriundo do fato de que os homens que amam são utilizados como escravos emocionais e os insensíveis são amados. Trata-se de uma estranha contradição: aquelas mulheres que se lamentam por não serem amadas são justamente as mesmas que rejeitam aqueles que as amam e preferem os cafajestes insensíveis.
Esta preferência pelos playboys, cafajestes, don juans, poderosos, famosos, líderes etc. que não se apaixonam e dispõem de muitas pretendentes e amantes torna a realização no amor passional impossível. É impossível que uma pessoa que adote a indiferença como critério para eleição de seu objeto de amor seja feliz pela própria natureza contraditória de sua escolha.
Escolher o insensível como pessoa ideal para ser feliz no amor é algo assim como eleger, entre várias alternativas, um carro como o veículo ideal para se atravessar o oceano. É, à primeira vista, ilógico. Além de ilógico, é nefasto para as mulheres. O fato de elegerem aqueles que as rejeitam como objeto de amor, parece, à primeira vista, ser uma prova de que as mulheres são absurdas, incoerentes e ilógicas.
Entretanto, esta é uma questão ainda não resolvida a contento. Defendo a hipótese de que tal comportamento é ilógico apenas na aparência ou até certo ponto, ocultando um princípio totalmente coerente com uma conduta calculista, aproveitadora e egoísta, mas muitas vezes inconsciente: ao oferecerem sexo e amor aos insensíveis, na verdade o fazem movidas por orgulho, sede de poder e de domínio.
Em outras palavras: elas são absurdas, insensatas e ilógicas apenas sob certos aspectos do problema. São habilidosas estrategistas. Os insensíveis acenam com a possibilidade de obter poder e prestígio por serem aqueles que a curto prazo se destacam sobre os bons na selvagem luta pela sobrevivência. Esta superioridade é aparente pois, no final da vida, os homens colhem aquilo que plantaram, mas é suficiente para iludir as mulheres por serem as mesmas muitas vezes irracionais, passionais, superficiais, volúveis e facilmente atingidas por más influências.
Os machos polígamos, depravados e promíscuos excitam a curiosidade e o desejo de submetê-los pelo amor. A curiosidade as leva a raciocinar: "Se ele possui várias, deve ter algo interessante. O que será que ele tem para atrair tantas?" O orgulho dirá: "Será que sou capaz de fazê-lo se apaixonar e rastejar por mim?". E a cobiça a fará pensar: "Se eu submetê-lo pelo amor, terei um escravo para me servir e serei tratada como uma princesa." Quando o tiro sai pela culatra e a guerra da paixão é perdida, então elas reclamam e se lamentam imputando toda a culpa a nós e generalizando.
Os homens insensíveis, mulherengos, distantes e cruéis são considerados superiores aos bons, honestos, fiéis e trabalhadores. As mulheres, então, tentam dobrá-los e submetê-los por cobiçarem a posição e o status que poderão obter em relação às fêmeas rivais, que também os desejam. Quando não conseguem, por serem eles durões, passam a se lamentar. Os lamentos são então exteriorizados sob falsa roupagem de amor e sensibilidade romântica, sendo daí proveniente a errônea e muito comum idéia de que todas as mulheres são seres carinhosos incompreendidos que retribuem o amor com amor.
No plano real, o amor simplesmente afetivo é geralmente retribuído com indiferença, aversão e infidelidade ao passo que a frieza, a determinação e o comando, se assumirem feições protetoras, são retribuídos com tentativas de submissão por meio da carinho amoroso e ardentemente erótico. O fato de serem justamente os piores machos que dispõem do amor das mulheres mais lindas é uma prova multisignificante de que o espaço para a sinceridade e a bondade não existe na guerra da paixão. As desfavorecidas em beleza aceitam os bonzinhos por se sentirem rejeitadas devido à pouca atratividade. Quando lhes damos beleza física, rapidamente se transformam.
A partir do exposto, concluímos que o amor passional das mulheres já nasce condenado a não se realizar pelo simples fato de que o critério utilizado para eleição de seu objeto é a inacessibilidade. Por outro lado, há nesse critério seletivo prejudicial muito de realmente absurdo. Observando-as, vemos algumas ilogicidades autênticas que não são aparentes, simuladas e nem tampouco propositalmente provocadas: as oriundas da natural propensão feminina à confusão psicológica. São ilogicidades involuntárias, inconscientes, negadas a todo custo e incompreensíveis por serem regidas pelo caos mental. Estas características explicam porque um intenso interesse, apego e dedicação por nós desaparece subitamente sem dar o menor aviso e nunca mais retorna.
A falta de senso lógico torna igualmente compreensível o absurdo de quererem ser amadas por cafajestes. São insanidades que nem mesmo elas explicam e tem sua origem em uma ruptura entre seus fortes instintos e seus intelectos. Tentar forçá-las por meio da argumentação a reconhecerem seus erros, a tomarem decisões lógicas, a serem transparentes, a admitirem a dissimulação etc. surte o efeito oposto e violenta suas naturezas, obrigando-as a se defenderem. Por mais evidente que seja a falta de lógica interna em uma mentira mal contada, tal fato jamais será admitido e os recursos melodramáticos para convencimento prevalecerão, transformando a discussão em um pandemônio infernal de idéias confusas e sentimentos insanos.
É uma absoluta perda de tempo tentar fazer uma pessoa compreender a própria maldade, as crueldades de suas atitudes desonestas no amor e os motivos pelos quais ela própria muitas vezes se faz indigna de ser amada. As discussões se transformam em brigas porque a mente passional não possui quase nenhuma objetividade que permita à pessoa abordar a si própria em uma auto-análise reflexiva. Ela mesclará, de forma caótica, múltiplos assuntos desconexos, tratando passional e superficialmente todos os pontos dialogados, não permitindo a compreensão em profundidade de nenhum. Cem por cento narcisistas, essas pessoas são incapazes de se enxergarem tal como são.
Entretanto, há também ilogicidades fingidas, como aquelas que algumas simulam quando querem fazer parecer que não estão entendendo algo óbvio, evidente, notório e manifesto. Serão abordadas no próximo capítulo. Ao contrário do que pode parecer, o comportamento feminino não é regido pelo caos absoluto, como equivocadamente supôs um amigo meu certa vez há muitos anos, mas, muito pelo contrário, é regido por um caos relativo. Os sentimentos, pensamentos e condutas das mulheres são caóticos somente sob a nossa perspectiva, a masculina. Sob a perspectiva da mulher, este caos é uma coerência total porque atende de forma ampla às suas várias necessidades.
Portanto, é um caos relativo. Não acredito em caos absoluto em nenhum âmbito e estendo esta ideia até o nível físico. Todo caos esconde, na verdade, formas insuspeitadas de ordem, apenas não percebidas pelos padrões raciocinantes e observacionais condicionados de quem os procura. É por isso que o comportamento amoroso feminino é desconcertante ao homem.
No campo amoroso, a mulher se mostra ao homem como ilógica, incoerente, ambígua, não-racional, confusa e paradoxal.
Esther Vilar está errada quando afirma que não há nada a ser compreendido por trás disso. Na verdade, há uma infinita teia de sentidos tecida por trás desta máscara, cuja coerência é quase impenetrável ao intelecto masculino. A "irracionalidade" (que na verdade é uma forma incompreensível de racionalidade, tão incompreensível que nem elas mesmas conseguem se explicar de forma inteligível a respeito do que sentem, já que para tanto necessitariam de uma outra linguagem) é uma ferramenta de poder, domínio e defesa.
Se uma mulher age comigo de forma incoerente, não consigo compreendê-la e nem saber quem ela é de fato e o que quer. Se não sou capaz de compreendê-la, tampouco sou capaz de tirar conclusões. E se não sou capaz de tirar conclusões, meu intelecto fica paralisado e sou incapaz de agir, além de não conseguir entender o que sinto ou devo sentir por ela em meu coração de homem.
Para benefício das mulheres, o mundo sempre considerou "racional" somente a forma masculina de agir e pensar (linearidade, focalização, exclusão de opostos etc.). O homem, então, desenvolveu suas faculdades, úteis somente no combate aos rigores do mundo material, às expensas de outras, imprescindíveis na desagradável guerra da paixão, tornando-se muito pouco intuitivo, lento em inteligência emocional e vulnerável a manipulações emocionais.
Aqueles que consideram ofensivo o termo "irracional" o fazem por idolatrar aquilo que o ocidente consagrou como racionalidade. Para não escandalizar tanto, poderíamos substituir a palavra por "não-racional", o que no fundo é a mesma coisa. Não é necessário dizer, mais uma vez entre um milhão de vezes, que o exposto acima é simplesmente uma hipótese a mais a ser considerada.
Em última instância, conclui-se que devemos atingir um estado interno em que simplesmente nos esqueçamos dos problemas e confusões que as mulheres criam para incansavelmente tentar nos envolver. Pelo fato de existirem ilogicidades reais e ilogicidades fingidas, resulta que não há outro caminho além da indiferença. Tentar forçá-las a revelar o que sentem, a definir posições, a não mentir, a não esconder, a não manipular, a revelar segredos etc. pode ser até útil em algumas poucas situações emergenciais desesperadoras mas é, ainda assim, conferir-lhes importância e, portanto, fornecer poder, força e energia.
O ideal é a neutralidade completa, a aceitação total, a indiferença com relação ao que sentem por nós ou pelos outros, bem como com relação à (i)veracidade do que dizem, às tentativas de enganar e de manipular. Este é o caminho ensinado por Gandhi e Jesus Cristo: aceitação, neutralidade, não-identificação e não-ação.
