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O Subsolo.
#10
(24-07-2024, 10:27 AM)Wesley de Mileto Escreveu: Eu pretendo comprar esse livro, agora que já possuo uma bagagem literária vasta e consigo compreender textos mais eruditos. Até agora tive muito contato com a escrita alemã e brasileira, e penso que a escrita russa deva ser a mais profunda de todas. Quando eu ler essa obra voltarei aqui para depositar minhas impressões.
Nem lembrava mais desse comentário Big Grin . Terminei esse livro ontem, li-o em 3 dias. É uma leitura densa, profunda e às vezes até enfadonha, visto que o protagonista fala de mais em alguns momentos. No entanto, é uma obra na qual o autor consegue retratar a alma humana muito bem com suas nuances. Não é à toa que Nietzsche descreve Dostoievski como "o maior psicólogo de todos". Vamos lá.
A primeira parte é intitulada de Subsolo. Basicamente o nosso herói vai fazer algumas considerações sobre si mesmo e sobre os homens no geral. Ele se considera de inteligência elevada e inveja os tolos, pois para ele a consciência é uma doença. Se tem uma palavra que pode descrever bem o homem do subsolo, seria: contradição. O homem do subsolo é contraditório do inicio ao fim. Ao mesmo tempo que despreza e tem repugnância pelas pessoas, ele quer ser aceito por elas, quer ser visto e notado. Em certos momentos considera-se de muito espírito, superior aos "estúpidos", aos "homens de ação", e em outros diminui-se, apequena-se, se enxerga como o mais miserável e vil dos homens. 
Não sei se alguns de vocês já assistiram Taxi Driver, mas o protagonista do filme foi inspirado no homem do subsolo, e é essencialmente contraditório também. Mas não apenas isso, o homem do subsolo é um completo tolo e ridículo, e ele tem consciência disso. Ele mente para si mesmo e tem plena ciência do que faz, é um idiota consciente, um insensato "espirituoso". Está à margem da sociedade, é um inepto, um desajustado, desajeitado, um pobre coitado. Por isso decidiu habitar no subsolo, para se isolar da sociedade. Assim, ele mergulhou em si mesmo, tornando-se estupidamente egoísta, ressentido e leviano para consigo mesmo.
Contudo, algumas passagens me chamaram atenção. Por exemplo, quando ele diz: "Quanto mais eu tinha consciência do belo e sublime, mais eu me aprofundava no lodo". Vejam bem, aqui está uma constatação profunda. Quando mais buscamos o "belo e sublime", ou, o "elevado" mais afundamos em nossa escuridão, em nosso abismo, portanto, não há elevação ou transcendência sem sofrimento. O caminho para o céu parece o inferno. Como já disse um filósofo, é preciso ter o caos dentro de si para dar luz a uma estrela cintilante, e também: uma árvore que deseja atingir aos céus deve enfiar suas raízes até o inferno. 
Outra frase que achei interessante da obra é: "o homem, às vezes ama terrivelmente o sofrimento, ama até a paixão." Compreendendo o contexto dessa frase tudo fica mais claro. No contexto em si, o protagonista estava fazendo uma critica ao utilitarismo, que acreditava que o homem vivia em busca do bem estar. No entanto, o autor questiona essa visão, argumentando que o ser humano na maioria das vezes deseja aquilo que é mal para ele, e que não se pode reduzir o homem em probabilidades e equações matemáticas, afinal, o homem não é um ser objetivo, mas é subjetivo e está imerso numa condição humana de liberdade (nesse ponto, Dostoievski se torna um precursor do existencialismo). Portanto, às vezes o homem ama o sofrimento, e o ama porque o sofrimento não é necessariamente danoso, é preciso destruir para dar luz a algo novo, é preciso sofrer para tornar-se forte e preparado. A vida ensina grandes lições no sofrimento, e talvez por isso "o homem ama o sofrimento". A tristeza do semblante torna o coração compressivo, já dizia Salomão.
A segunda parte é uma narração de memórias do nosso herói, memórias ridículas e vergonhosas, na qual o homem do subsolo mostra-se completamente desajeitado, cruel e até mesmo caricaturesco. Um homem que se fechou tanto dentro de si, que fugiu tanto da sociedade, que tornou-se incapaz de se integrar de novo a mesma...
Enfim, o livro é bom, mas a segunda parte é enfadonha, por isso nem desenvolvi tanto sobre ela. Uma boa obra para se ler rapidamente, e também me parece uma boa introdução aos escritos de Dostoievski.
A sorte favorece os audazes
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