25-09-2026, 08:20 PM
Há alguns dias, durante minhas andanças na internet, mais precisamente na camada corporativa do inferno conhecida como LinkedIn (fazia um tempo que eu não entrava, desde que consegui me realocar no mercado de trabalho), notei um padrão interessante: basicamente todo post ao menos foi criado por uma IA, quando não são literalmente uma IA. Frases como: “Liderança não é X, é Y” acabaram enchendo o feed de qualquer um que tenha mais de 50 conexões.
A outra rede social com a qual tenho mais contato é o X, antigo Twitter, e, apesar de ver bots com certa frequência lá, eles não são tão frequentes, ou ao menos tão escancarados, quanto os que estão no LinkedIn.
Aparentemente, isso incomodou tanta gente que o LinkedIn criou um botão para denunciarem AI Slop: https://www.linkedin.com/pulse/ai-slop-o...ano-wxd1c/ — e, ironicamente, a imagem do texto com certeza foi produzida por IA.
A questão é: visto que o próximo passo natural das LLMs são agentes autônomos, estaríamos mais perto da teoria da internet morta? E pior, talvez a informação, de certa maneira natural que temos hoje, talvez fique escondida através de tanta informação "sintética". Caso isso venha a ocorrer, fóruns como esse podem ser o ultimo refúgio de pessoas "autenticas" por assim dizer.
O que é a teoria da Internet morta?
A teoria da Internet morta, é uma teoria conspiratória que começou a ganhar força no final da década passada e ficou mais conhecida por volta de 2021 (havia discussões sobre isso no 4Chan já em 2014). ela afirma que uma parcela considerável da internet que pensamos ser composta por pessoas reais seria, na verdade, formada por bots, conteúdo automatizado e interações artificiais. Há ainda a teoria que governos ou grandes corporações estariam por trás de tudo isso, o que nitidamente seria o esperado.
A questão é que antes o que podia ser simplesmente uma conspiração, hoje em dia pode estar se tornando realidade. Bots antigos eram relativamente burros. repetiam mensagens, seguiam scripts e geralmente eram fáceis de identificar. Um agente baseado em LLM pode receber um objetivo, produzir textos diferentes, responder pessoas, adaptar sua linguagem, manter uma persona e continuar executando tarefas sem alguém precisar escrever manualmente cada mensagem.
https://www.imperva.com/resources/resour...ot-report/ - De acordo com alguns relatórios, mais de 50% do tráfego da internet (não necessariamente comentários ou interações em redes sociais) são feitos de maneira automatizada.
Quais então seriam as implicações?
(lista feita com a ajuda de IA
)
Tem ainda uma implicação que acho mais importante. Durante algumas décadas, a internet deu um poder absurdo para o sujeito comum. Não porque todo mundo ficou mais inteligente, mas porque derrubou boa parte das barreiras de acesso à informação. Um cara qualquer podia aprender programação, ler artigos acadêmicos, acompanhar guerras em tempo real, acessar documentos públicos, conversar com especialistas, encontrar livros obscuros ou publicar alguma coisa sem depender de jornal, editora, universidade ou televisão.
Talvez “democratização da informação” seja uma expressão meio batida, mas houve claramente uma redução brutal da intermediação. O sujeito médio ganhou acesso a coisas que antes estavam restritas a instituições, especialistas ou gente com dinheiro e contatos.
Só que talvez estejamos entrando numa segunda fase. O problema deixa de ser conseguir acesso à informação e passa a ser separar informação de ruído. Se produzir texto, imagem, vídeo, comentário, review e até uma personalidade inteira custa quase nada, a quantidade de lixo sintético pode crescer muito mais rápido do que a capacidade humana de verificar o que presta.
Jacques Ellul já observava que a técnica tende a ganhar certa autonomia: ela não avança necessariamente porque alguém decidiu para onde ela deveria ir, mas porque tudo aquilo que pode ser feito de maneira mais eficiente tende a ser feito. Talvez nem precisemos de uma conspiração para criar uma Internet morta. A própria lógica da técnica pode nos levar a esse fenomeno.
Dito isso, levanto algumas questões para aqueles que quiserem discutir, mas não estamos presos somente a elas:
- Vocês acham que fóruns menores e comunidades fechadas podem acabar virando uma espécie de “refúgio humano” da internet futura?
- Esse fenômeno parece apenas consequência natural dos incentivos econômicos e tecnológicos, ou vocês acham que existe também algum grau de orquestração por governos, empresas e plataformas?
- a internet continuará sendo uma ferramenta de emancipação do sujeito comum ou vai acabar recriando novas formas de controle e poder?
A outra rede social com a qual tenho mais contato é o X, antigo Twitter, e, apesar de ver bots com certa frequência lá, eles não são tão frequentes, ou ao menos tão escancarados, quanto os que estão no LinkedIn.
Aparentemente, isso incomodou tanta gente que o LinkedIn criou um botão para denunciarem AI Slop: https://www.linkedin.com/pulse/ai-slop-o...ano-wxd1c/ — e, ironicamente, a imagem do texto com certeza foi produzida por IA.
A questão é: visto que o próximo passo natural das LLMs são agentes autônomos, estaríamos mais perto da teoria da internet morta? E pior, talvez a informação, de certa maneira natural que temos hoje, talvez fique escondida através de tanta informação "sintética". Caso isso venha a ocorrer, fóruns como esse podem ser o ultimo refúgio de pessoas "autenticas" por assim dizer.
O que é a teoria da Internet morta?
A teoria da Internet morta, é uma teoria conspiratória que começou a ganhar força no final da década passada e ficou mais conhecida por volta de 2021 (havia discussões sobre isso no 4Chan já em 2014). ela afirma que uma parcela considerável da internet que pensamos ser composta por pessoas reais seria, na verdade, formada por bots, conteúdo automatizado e interações artificiais. Há ainda a teoria que governos ou grandes corporações estariam por trás de tudo isso, o que nitidamente seria o esperado.
A questão é que antes o que podia ser simplesmente uma conspiração, hoje em dia pode estar se tornando realidade. Bots antigos eram relativamente burros. repetiam mensagens, seguiam scripts e geralmente eram fáceis de identificar. Um agente baseado em LLM pode receber um objetivo, produzir textos diferentes, responder pessoas, adaptar sua linguagem, manter uma persona e continuar executando tarefas sem alguém precisar escrever manualmente cada mensagem.
https://www.imperva.com/resources/resour...ot-report/ - De acordo com alguns relatórios, mais de 50% do tráfego da internet (não necessariamente comentários ou interações em redes sociais) são feitos de maneira automatizada.
Quais então seriam as implicações?
- Dificuldade cada vez maior de saber se estamos interagindo com uma pessoa real.
- Fabricação artificial de consenso, tendências e opiniões.
- Crescimento de spam, propaganda e manipulação automatizada.
- Conteúdo sintético soterrando conteúdo genuinamente humano.
- Agentes conversando e interagindo com outros agentes sem participação humana direta.
- Perfis artificiais mantendo personalidade, histórico e comportamento coerente por longos períodos.
- Manipulação cada vez mais personalizada, com agentes adaptando argumentos para cada pessoa.
- Perda de confiança em comentários, avaliações, reviews, notícias e até testemunhos pessoais.
- Fóruns pequenos, comunidades fechadas e reputações antigas passando a ter mais valor justamente por parecerem mais "humanos".
- A informação humana se tornando um recurso escasso no meio de uma quantidade enorme de conteúdo gerado automaticamente.
(lista feita com a ajuda de IA
)Tem ainda uma implicação que acho mais importante. Durante algumas décadas, a internet deu um poder absurdo para o sujeito comum. Não porque todo mundo ficou mais inteligente, mas porque derrubou boa parte das barreiras de acesso à informação. Um cara qualquer podia aprender programação, ler artigos acadêmicos, acompanhar guerras em tempo real, acessar documentos públicos, conversar com especialistas, encontrar livros obscuros ou publicar alguma coisa sem depender de jornal, editora, universidade ou televisão.
Talvez “democratização da informação” seja uma expressão meio batida, mas houve claramente uma redução brutal da intermediação. O sujeito médio ganhou acesso a coisas que antes estavam restritas a instituições, especialistas ou gente com dinheiro e contatos.
Só que talvez estejamos entrando numa segunda fase. O problema deixa de ser conseguir acesso à informação e passa a ser separar informação de ruído. Se produzir texto, imagem, vídeo, comentário, review e até uma personalidade inteira custa quase nada, a quantidade de lixo sintético pode crescer muito mais rápido do que a capacidade humana de verificar o que presta.
Jacques Ellul já observava que a técnica tende a ganhar certa autonomia: ela não avança necessariamente porque alguém decidiu para onde ela deveria ir, mas porque tudo aquilo que pode ser feito de maneira mais eficiente tende a ser feito. Talvez nem precisemos de uma conspiração para criar uma Internet morta. A própria lógica da técnica pode nos levar a esse fenomeno.
Dito isso, levanto algumas questões para aqueles que quiserem discutir, mas não estamos presos somente a elas:
- Vocês acham que fóruns menores e comunidades fechadas podem acabar virando uma espécie de “refúgio humano” da internet futura?
- Esse fenômeno parece apenas consequência natural dos incentivos econômicos e tecnológicos, ou vocês acham que existe também algum grau de orquestração por governos, empresas e plataformas?
- a internet continuará sendo uma ferramenta de emancipação do sujeito comum ou vai acabar recriando novas formas de controle e poder?
" Por mínimo que seja o que um homem possua, sempre descobre que pode contentar-se ainda com menos."



