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[2 em 1] O desemprego e a saúde pública 'precária' seriam outros mitos?
#1
Desde que me conheço por gente, em tempos variáveis, sempre vi falar na alta taxa de desemprego... SÓ QUE, nunca conheci uma pessoa que foi despejada ou passou necessidades por culpa do desemprego!

Conheço 3 tipos de desempregados:

- Os que não precisam trabalhar,

- Os que estão no seguro desemprego;

- E os que ficam, no máximo, alguns meses desempregado.

Tenho parentes que moram em favelas, no Interior e até no Litoral, e nunca ouvi falar em alguém desempregado 'consciente' que tinha sido despejado / passando necessidades. Só ouvi falar de algumas 'famílias', onde a matriarca é dona de casa, e o marido estava temporariamente desempregado, mas com, pelo menos, 3 filhos, passando necessidade. Nesse caso, a culpa é da irresponsabilidade dos pais de terem muitos filhos e não do desemprego em si.



Já fiz algumas cirurgias (pelo SUS e 'bom plano de saúde'), a única diferença na prática, foi que no plano de saúde tive quarto de recuperação dividido com menos pessoas (eu e mais 2 ou 3 pessoas) e com ar-condicionado. Então vejo, que as pessoas que falam mal do SUS, querem tratamento diferenciado. Inclusive, conheço algumas pessoas que se trataram pelo SUS por terem tido problema grave e nem com sequelas ficaram.




Portanto, caso tenham conhecimento, de alguém que tenha passado por problemas pessoais devido ao desemprego e/ou tenham ficado com sequelas ou morrido pelo SUS, relate!
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#2
Tem que sair da bolha pra enxergar além dos números.

Já participei em obras de caridade fora da área higienizada pelo estado e é feio, cruel e triste demais. Crianças cheias de doenças, orfas, sobrevivendo de doações. Pessoas vivendo em casebres, se alimentando de água e farinha.

O mundo não é bonito, porra. Eu mesmo preciso me lembrar de agradecer todos os dias pelo que tenho.

Um homem com escolhas é um homem livre.
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#3
O país é muito grande, existem muitas faces. Portanto há locais bem piores e com escassez de recursos, entretanto, atualmente, essa "necessidade" não costuma ser de coisas tão básicas. A fome coletiva no mundo tem reduzido muito, o que existem mais são casos de pessoas vulneráveis (crianças, idosos, pessoas com deficiência) que acabam passando mais essas necessidades básicas. De todo modo, hoje em dia, vive-se muito melhor que 30-40 anos atrás, pois a produtividade melhorou muito.

Sendo assim, as necessidades costumam ser coisas além das básicas para a sobrevivência e o que de fato mais afeta a sensação negativa é a comparação com pessoas próximas (exemplo: alguém que ganha 10 mil onde todo mundo ganha 20 mil se sentirá um merda; já quem ganha 5 mil onde todo mundo ganha 2 mil se sentirá bem - existem pesquisas sobre isso)... a coisa fica pior com as redes sociais e todo o conto de fadas que os idiotas compram. Outro fator é a mídia que foca só no lado negativo, pois vende mais assim.

Quanto a essas médias de desemprego elas são rotativas, há muita troca no mercado de trabalho, portanto, como regra, um indivíduo fica desempregado por alguns meses e logo se recoloca enquanto outro sai e assim vai... tanto é assim que uma média de desemprego de até 6% é considerada pleno emprego.

Já o SUS é muito relativo, ou seja, certamente o atendimento pode ser tão bom quanto o particular até porque a quantidade de recursos investidos é enorme, por outro lado, locais com muita demanda, onde o povo não tem para onde recorrer lotando hospitais tende a ser pior, ainda mais agravado pela maior violência nesses locais e também pela ignorância que faz primeiro o indivíduo não cuidar da saúde de forma adequada e ir ao médico/hospital por qualquer porcaria entupindo o local (inclusive com violência contra profissionais, barraco, gritaria etc), tornando-o uma bosta.
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#4
Vivi conhecendo a miséria de perto, mas nunca passei por nada grave, graças a Deus. Meus pais ralaram muito, principalmente minha mãe, apesar da história do meu pai ser mais triste e pesada. Foi mal o textão, mas estou com uma compulsão por escrever ultimamente.

Resumo: Conheci muita gente próxima que passou miséria total mesmo, todos fizeram alguma coisa e deram um jeito.

Durante a minha infância tive um colega de 4 ou 5 anos, no máximo, que fumava e passava o cigarro pro irmão praticamente bebê no berço feito de pallet. Ele catava sucata pra vender e minha família dava algum auxílio pra eles pelo que lembro. Quando iam em casa brincar era como se tivessem entrado na disneylandia. Dava tristeza de ver.

Minha família inteira conheceu a miséria e a fome de perto em niveis que muitos nem sequer sonham que existam no país. Tinham nada, conseguiram muito e perderam tudo do dia pra noite em situações completamente inusitadas e trágicas.

Minha mãe morou em casa de barro na infância e passou fome, vendo o padrasto dela espancar minha avó com uma frequência quase que diária. Tinha que passar o barro semanalmente na casa pra não desabar tudo e hoje tem quem reclame de passar pano no chão de cerâmica.

O primeiro sofá da minha avó foi a minha mãe que comprou aos 9 anos de idade vendendo a comida que fazia no fogão a lenha de porta em porta. O nivel da pobreza era tão grande que escovavam os dentes com sabão caseiro feito com cinza de carvão, soda e banha de porco, isso quando tinha. Tinha epilepsia e caia do nada no meio da rua por causa da crise. Não sabiam nada daquilo na época, então era um verdadeiro inferno. Foi conseguir um tratamento que funcionasse com mais de 40 anos de idade só a base de remédio tarja preta pesadissimo. Já vi minha mãe quase morrer inúmeras vezes e antes de eu existir quase morreu de acidente de carro, dentre outras loucuras. Viva até hoje, e, graças a Deus, muito bem. Só vai a hora que tiver que ser mesmo.

Experiência com SUS tive com a minha tia e tive que entrar lá metendo o pé na porta, maior doideira, inclusive acho que fiz um tópico sobre isso aqui. Edit: fiz o tópico no calor da emoção na época, até tinha me esquecido.

Conseguiu estudar em um dos melhores colégios da cidade por algum milagre. As professoras implicavam muito com ela. Teve uma vez que rasparam todo o cabelo da minha mãe e bateram nela até sangrar. Ela apanhava quase todo santo dia e era colocada pra rezar ajoelhada no milho pelas freiras. Sempre brigava com os meninos que implicavam com ela, dava porrada em todo mundo, pegava pedaço de pau, pedra e o escambau. Era uma doideira, só ela contando mesmo pra ter noção. Começou a comer melhor por causa do colégio.

Conseguiu seu primeiro emprego formal em uma tesselagem com 12 anos de idade e comia uma banana por dia pra juntar dinheiro e mandar pra casa. Terminou os estudos, fez uma faculdade e trabalhou na melhor empresa do setor na época. Dava aula pros engenheiros e corrigia todos os projetos sem nunca ter visto aquilo na vida, todo mundo ficava sem entender nada. Virou praticamente a vice presidente da empresa, que na época era uma das maiores, se não a maior do país do setor. Depois que o dono morreu os filhos depredaram todo o patrimônio e ela foi fazer outras coisas.

Nessa época você só tinha alguma coisa se você fizesse com suas próprias mãos.

Foi roubada pelo sócio em outros negócios e passou várias situações bizarras. Recuperou tudo de novo. Abandonou tudo e ficou em casa me criando até passar essa fase de infância. Passou dificuldades de novo. Separou do meu pai e não levou um tustão dele. Deixou a casa, deixou tudo e nunca mais olhou pra trás depois que descubriu que meu pai tinha amante.

Saimos praticamente com a roupa do corpo de casa, porque ela quis e preferiu assim. Quando acabamos de nos mudar um maluco tentou invadir o terreno e minha mãe saiu correndo dando tiro pra cima dele, enquanto o bandido pulava o muro e gritava de dor.

Quando meu pai tentava pagar pensão, minha mãe xingava e falava que não precisava de esmola. Passamos um cortado nessa época. Alguns poucos anos depois meu pai se fodeu todinho com dívida disso e daquilo e quase teve todos os bens penhorados. Quando acabou a grana e meu pai não conseguiu pagar pensão do outro filho que teve com a amante, a mulher meteu ele na cadeia alegando mil e uma loucuras.

Minha mãe sabia que era tudo mentira e arrumou um advogado bom pra cacete pra soltar ele. Meu pai ficou se achando depois, tentando voltar com a minha mãe e ela disse na lata que não andava pra trás e que era pra ele voltar pra amante que meteu ele na cadeia, que ela nunca traiu ele e que não acreditava em segunda chance.

Foi parar na cadeia depois de velho por causa de pensão e acusação maluca da amante, sem nunca ter roubado 1 real, fico puto lembrando disso. Vi meu pai negando bolo de dinheiro pra entrar no crime e mandando o amigo dele tomar no cu perguntando se ele tava doido, isso depois de dar porrada nele. Depois que a minha mãe descobriu que eu tinha visto isso deu maior merda e minha mãe foi atrás do amigo dele com meu tio pra prender o maluco. Nisso meu tio quase que deu um tiro no próprio pé. Minhas histórias de familia parecem coisa de filme de tão surreais.
 
Na infância meu pai viveu nas ruas de uma das cidades mais perigosas do país e comia mariscos das pedras pra sobreviver. Foi colocado pra fora do barraco pelo próprio irmão quando meu avô morreu. Perdeu a mãe com menos de 8 anos de idade e viu o próprio pai mendigo, completamente enlouquecido e bêbado vivendo em um banco de praça.

Me contou de uma vez que conseguiu um trocado levando carrinho das senhoras da feira até a casa delas e com o dinheiro foi comer em um bar da favela. Ele sentou pra comer e na mesa tinham uns homens jogando truco. Do nada dois homens começaram a discutir e um deles não queria pagar o que na época ele disse valer praticamente um real, quase nada. Um deles fica puto, levanta e dá um tiro de .38 na cabeça do outro, que cai praticamente em cima do prato de comida dele.

Só estou aqui porque meus dois pais sobreviveram nesse cenário de fome, violência e miséria.

Ele só conseguiu sair da favela depois de entrar no exército. Se formou em uma das melhores universidades da área dele e fez pós. Teve uma carreira de sucesso. Nunca roubou, nem traficou, mas teve inúmeras possibilidades. Se eu contar a história da cadeia vai parecer mentira, então não vou falar. Viu a própria namorada dele ser estuprada e morta pelos traficantes na sua frente, isso na adolescência. Pegou ódio de bandido e queria virar policial, mas não deu certo.

Uma vez vi meu pai em uma porrada de bar que até hoje não sei como não morreu ninguém, detalhe: minha mãe estava junto e arrebentou um maluco grande pra cacete na pancada também, deixou o cara estirado. Eu era criança quando vi isso acontecer, simplesmente inesquecível.

Meus avós passaram coisa muito pior que isso, que se eu contar aqui também vai parecer mentira.  Minha biza foi vendida como escrava, detalhe, ela era BRANCA. Passou o inferno na terra.

Meu avô foi um boxeador profissional consagrado, que só perdeu uma luta e empatou uma. Na época todo mundo lutava por cesta básica, então só ganhava o que comer mesmo e lesão na cabeça, dinheiro era praticamente nada. Largou o boxe. Até cafetão ele foi, mas não continuo contando essas histórias de família porque parece mentira de tão surreal e com a história do meu avô aqui acham até meu cpf em 2 minutos de google.
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#5
Cara, dizer que é mito é forçar a barra. O que há é uma desigualdade geral das condições até por que o panorama do mercado de trabalho é muito complexo. Se você dorme tomado banho todo dia numa cama limpinha, considere-se sortudo.

Não vou dizer que é um número absurdamente grande de pessoas, mas tem muita gente fudida nesse mundo velho. Por que digo isso? Beleza, um ou outro aqui tem plenas condições de trabalhar, mas tem muita gente que não tem (seja por problema ou alguma deficiência), isso só para começar a conversa.

Outra coisa que tem gente que tem que viver trabalhando de época em época, pulando de bico em bico, sendo ambulante, etc. e tem o trabalho inconstante e altamente instável. Muitos desses estão fodidos agora em tempos de pandemia, pois dependem da economia e uma série de fatores para conseguirem colocar a cabeça pra fora da água.

Muito colega meu que saiu pra as obras da vida e outros empregos sazonais, com as crises econômicas, recessão e falta de crescimento, voltaram todos pra casa de mão abanando. Numa situação de país em crescimento não falta trabalho, falta é gente, agora tá sendo o contrário. Tem gente também que só quer ver o dinheiro entrando na conta todo mês sem esforço, mas pra muita gente a vida é suada e sofrida.

Claro, outra coisa também é que trabalho nunca faltou nesse mundão velho, mas falta emprego, investimento, etc. Desemprego é uma soma de muitos fatores invisíveis e é uma coisa muito abstrata por si só, e seu próprio número representativo já varia muito ao longo do ano, não é exatamente uma realidade como alguns pensam.

O que eu sei e posso dizer é que de fato existe muitos desentendimentos sobre o mercado de trabalho e a saúde, coisa que povão com senso comum não consegue captar, mas mitos ou absurdos, por incrível que pareça, acredito que não são tantos, até por que isso faz parte do cotidiano das pessoas.
Citação:“Fortuna Perdida? Nada se perdeu... Coragem perdida?
Muito se perdeu... Honra perdida? Tudo se perdeu...”

(Provérbio Irlandês)
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#6
(23-07-2020, 11:04 PM)Gorlami Escreveu: Tem que sair da bolha pra enxergar além dos números.

Já participei em obras de caridade fora da área higienizada pelo estado e é feio, cruel e triste demais. Crianças cheias de doenças, orfas, sobrevivendo de doações. Pessoas vivendo em casebres, se alimentando de água e farinha.

O mundo não é bonito, porra. Eu mesmo preciso me lembrar de agradecer todos os dias pelo que tenho.

Excelente colocação, amigo Gorlami.

Eu moro em metrópole e o problema é que achamos que a vida é o recorte em qual estamos inseridos. A vida, principalmente longe das grandes cidades, é cruel demais. Realmente vivemos numa bolha.
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