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[RELATO] O Olhar do Tigre (Um conto realista)
#1
Era quase meia noite, a chuva torrencial batia na porta e eu estava jogado no meu sofá, bebendo mais uma dose de Whisky, meu único companheiro da noite. Estava pensativo nesse dia, com uma angústia internalizada que arrancava cada pedaço de mim. Mas eu não lutava, estava entregue, apenas me entupindo de álcool, como se fosse resolver meus problemas. Porque eu aceitei a luta? Porque vou me sujeitar a isso? Eu já dava a luta como perdida, não havia mais nada o que se fazer, apenas juntar o máximo dinheiro possível com a luta e gastar com bebidas e mulheres, meus únicos momentos de prazer.

Julio Rodriguez era o maior artista marcial do bairro, nunca perdeu uma luta e eu era seu próximo adversário. Desde que meu pai morreu, abandonei os treinos, e o seu sonho de ver seu filho um campeão, estava mais longe do que nunca de acontecer. Estava só, minha mãe morreu no parto, e meu pai, que era o meu norte e me inspirava pra treinar, já tinha partido. Mergulhei nas bebidas e no prazer, estava afundando minha carreira. Às vezes escutava uma voz na minha cabeça: “Não desista, Lute! Lute!”, mas era fraca demais. Eu era um fraco. Eu era um derrotado.

Em momentos como esse, a probabilidade de pensar em coisas destrutivas é muito maior. De fato, eu estava me destruindo, havia uma bomba relógio em mim pronta para explodir a qualquer momento. Pra quê treinar? Faltavam quarenta dias para a luta e eu não via a hora de passar esses dias e terminar minha angústia. Eu já estava considerando a hipótese de desonrar meu compromisso e fugir da luta. “Covarde!”. Droga, essa voz era muito irritante. E muito burra também, queria que eu lutasse e enfrentasse Julio Rodriguez de cabeça erguida. Ora, não havia a mínima possibilidade de vencer aquela luta. Muito melhor mesmo era fugir, que se dane o dinheiro da luta, arrumava uns bicos no bar do Nelson e conseguiria gastar com meus prazeres.

Já era meia noite e eu iria pegar a última dose de Whisky, já estava meio grogue, mas ainda estava consciente. Precisava de doses cada vez maiores pra fazer efeito. Era quase um alcóolatra. Mas ao levantar do sofá e me virar para a direção da bebida, me deparei com a única foto do meu pai que estava no porta retratos ao lado da garrafa de Whisky. Aquilo, de repente me deu um baque. Estava olhando para a sua imagem e tive a impressão da foto mudar de expressão, uma expressão de desapontamento. Estaria meu pai desapontado com o rumo que eu estava tomando? Sempre sabia que ele queria me ver um vencedor, mas logo após sua morte, fechei-me e só pensava nos meus prazeres, nunca mais parei pra pensar nele. “Egoísta! Lute pela sua honra!” Droga! A voz de novo, e dessa vez era mais forte! “Vai desistir fácil assim da vida? O que seu pai iria pensar disso, seu fracote?” A voz vinha mais forte. E mais forte. E mais forte... Até que me dei conta da besteira que estava fazendo e me veio uma tremenda vergonha, queria esconder minha cara em um buraco de tamanha vergonha. Como fui tão fraco? Como fui tão estúpido? Mas agora não tinha o que lamentar. Agora eu tinha que treinar.

Por quarenta dias, treinei intensamente. Estava feliz, fazia muito tempo que não tinha foco na minha vida. Mas agora era diferente, pois eu tinha um objetivo: vencer Julio Rodriguez. Treinei meu boxe, treinei meu muay thay, treinei meu Jiu-Jitsu, treinei meu karatê e estava sentindo minha evolução. A cada soco, a cada chute, eu via o rosto do meu oponente. Eu gritava seu nome a cada treino, eu o via a todo o momento, eu estava determinado a vencê-lo. Coloquei meu CD do Survivor e treinei lembrando de meu pai, quando assistíamos os filmes do Rocky Balboa, ao som de Eye Of The Tiger. Tempos bons, que me ajudaram e me dar forças para treinar.

Chegou o grande dia da luta, o local estava lotado, todo mundo apostando em Rodriguez, claro. Eu estava nervoso, apesar de ter treinado com um foco que há muito tempo eu não tinha, ainda estava inseguro quanto ao meu sucesso. Esse nervosismo podia me atrapalhar. E a cada grito da plateia pelo meu adversário, eu ficava mais nervoso. Até que aquela voz apareceu novamente, dessa vez chamando meu nome. Eu estava embaraçado por ela aparecer naquela hora, mas eu resolvi dar uma chance. Eu fechei meus olhos e então eu vi. Uma chama forte e quente apareceu na minha mente. Sentia o fogo subir o meu coração. Era forte. Era arrepiante. A voz estava mais grossa e mais intensa: “Você me deixou preso aqui por muito tempo. Ficou se destruindo, enquanto me deixou preso aqui dentro”. O que isso queria dizer? O que essa voz quer de mim? Foi aí que uma pessoa saiu da chama, e para minha grande surpresa, essa pessoa era eu! Mas não era um eu como estava acostumado, era muito diferente. Sua expressão, seu olhar, ardia como o fogo. Era mais forte, sua postura botava medo e ao mesmo tempo respeito. “Mais uma vez, eu repito, você me deixou preso por muito tempo. Solte-me agora e deixe-me mostrar o que você realmente é capaz!”. Então acenei positivamente com a cabeça e abri os olhos. Senti uma coisa diferente. Estava mais confiante, com um olhar mais forte, meus punhos ardiam como chamas e meu coração estava ardente, prestes a estourar, era um fogo inconfundível. Estava muito mais poderoso, me sentia indestrutível. Tudo agora sintonizava com minha mente, meu coração e meus punhos. Eu estava pronto. Finalmente um guerreiro!

Então eu entendi. Meu espírito guerreiro estava preso em mim por todo o tempo, enquanto deixei o covarde e perdedor tomar conta, mas após o guerreiro assumir, vi que esse era o eu verdadeiro, tudo fazia mais sentido agora! Como deixei isso acontecer? Como deixei chegar nessa situação? Como fui capaz de cometer essa atrocidade comigo mesmo? Há um guerreiro em todo homem e eu deixei o meu preso. Deixei a fera enjaulada, implorando pra sair e encher de porrada esse meu eu covarde. Agora estava indo em direção ao ringue. Julio estava a minha espera, com sua arrogância normal, mas no primeiro momento que me fintou nos olhos, percebeu algo diferente no meu olhar. “Porque me olha dessa maneira?” disse, “Quero que olhe bem esse olhar, pois ele é o olhar do tigre e nunca mais você verá isso novamente”. O lutador deu uma gargalhada e falou: “Você acha mesmo que ganha essa batalha?”. Dei um leve sorriso. Então levantei minha cabeça, olhei em seus olhos e falei: “Isso não me importa mais, já venci minha batalha”.

[Image: scott_adkins_wallpaper_by_mdesign9-d4e43r4.jpg]                                                    [Image: 3069043-scott_adkins_workout.jpg]
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#2
Uma bela história. Mostra que, nas batalhas da vida, mais importante do que o resultado é o modo como as enfrentamos. Se o fazemos com honra e dignidade, somos homens de verdade.
"Vocês não passam de escravos para aqueles que tem olhos abençoados como os meus."

[Image: uchiha_madara_mokuton_mokuryu_no_jutsu_b...6q3ixn.jpg]
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#3
Obrigado. Fiz esse conto pra mostrar os conflitos internos que um homem tem em uma situação decisiva e o que ele tem a perder se deixar ser tomado por um espírito covarde e perdedor. Todo homem tem um guerreiro dentro de si, pronto pra assumir e liderar a situação, pra vencer as adversidades. Foi assim que nossos ancestrais levaram nossa civilização pra frente, assumindo seu espírito guerreiro e destruindo o covarde e perdedor. E é assim que a geração coitadismo entra nessa depressão, assume o covarde e elimina o perdedor.

Outro ponto tocado no texto foi o que você falou: como enfrentamos nossos problemas e como lidamos com desafios. Queremos superar a nós mesmo antes de mais nada e só depois superar aos outros.

Enviado de meu XT1033 usando Tapatalk
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#4
Muito motivador e esse filme da imagem, é foda.
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#5
A coragem e disciplina fazem diferença na vida de um homem. Esse cara passou de mais um perdedor á um resistente guerreiro.
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#6
Porra que massa velho, gostei muito, vou postar um sonzinho pra enriquecer esse conto fodástico



Foi a guerra quem em mim despertou um animal 

Ask mais badass da rede Big Grin : ask.fm/warMR 
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#7
Porra, War, muito boa essa música. Gosto demais dessas músicas pra dar aquela rage básica nos treinos.











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#8
Sensacional, texto bem escrito e demorou pra eu entender que era só um conto Big Grin
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