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Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - Subsolo - 19-05-2024 Salve, camaradas. Divagando acerca de algumas obras que li no decorrer dos anos, principalmente após terminar o Flores Para Algernon, me veio à memória algumas outras grandes histórias. A Metamorfose, Memórias do Subsolo, A Morte de Ivan Ilitch, entre outras desgraceiras. Charlie Gordon, Gregor Samsa, o homem do subsolo (Dostói não atribui um nome a ele, pois “não quero ser lido), Ivan Ilitch. Temas, histórias e personagens diferentes. Mas com alguns pontos em comum entre eles. Dois desses pontos podem ser: NEGLIGENCIAR A SI MESMO e o DESPREZO, seja pela família, pelos amigos, pela sociedade... todos desprezados de alguma forma e por algum motivo. Uns por inércia própria, outros pela condição, física ou mental, que lhes foram impostas. Para tanto, faz-se necessário contextualizar, mesmo que superficialmente – e deixo a recomendação aos senhores para que leiam as obras mencionadas, são excepcionais – os personagens: FLORES PARA ALGERNON (DANIEL KEYS) – CHARLIE GORDON
Spoiler Revelar A METAMORFOSE (FRANZ KAFKA) – GREGOR SAMSA
Spoiler Revelar A MORTE DE IVAN ILITCH (LIEV TOSTÓI) – IVAN ILITCH
Spoiler Revelar MEMÓRIAS DO SUBSOLO (FIÓDOR DOSTOIÉVSKI) – “HOMEM DO SUBSOLO”, SEM NOME Spoiler Revelar OS PONTOS:
NEGLIGENCIAR A SI MESMO E O DESPREZO
De alguma maneira, nossos ilustres personagens negligenciaram a si mesmos durante suas vidas. Uns mais, outros menos.
Submeteram-se a condições difíceis, que não queriam estar, por puro e simples comodismo ou importância com quem e o que não devia.
A nossa preocupação deve ser sempre em estar em concordância com nossos princípios e valores, ainda mais nos tempos de hoje, onde vivemos basicamente pisando em ovos.
A atenção e a vigília deve ser intensa.
Emprego, físico, mente, espírito. Qualquer área negligenciada terá consequências futuras.
Gregor Samsa se negligenciou quando esteve mais preocupado com os outros do que com ele próprio.
Ilitch se negligenciou quando se submeteu a amizades de merda e um casamento fracassado onde sua esposa sequer se importava com ele nos momentos de dor extrema. Cercou-se de falsas pessoas por puro comodismo. E Ivanovich possuía um excelente emprego, uma vida confortável.
Negligenciar a si mesmo é o primeiro passo para a ruína: a salvação é individual.
EU
Sempre gostei de ler livros dessa densidade de amargura, rancor, sofrimento e solidão.
É muito fácil ler todas essas histórias e observar as falhas e a mediocridade dos personagens.
Ultimamente (talvez pela idade) venho pensando mais nisso e percebi que muitas vezes a minha raiva dos personagens não é exatamente dos personagens, mas de mim mesmo.
Quantas vezes – e muitas vezes até hoje – eu não fui Charlie Gordon, Samsa, Ilitch e principalmente, PRINCIPALMENTE MESMO, o Homem do Subsolo?
Sou um extremo “negligenciador” de mim mesmo. Não posso nem me comparar a Ivanovich Ilitch, pois ele ainda não negligenciava sua área profissional, como podemos perceber no início da obra, onde ele consegue o mais alto grau de sua carreira (juiz de instrução).
Mas esse não é o único ponto.
Confesso que ter descoberto a matrix do dinheiro (matrix econômica, matrix fiduciária, e por aí vai) recentemente me fez começar a enxergar as coisas de uma nova perspectiva. O atordoamento foi tanto que ainda não assimilei os golpes. Encontro-me cambaleando no octógono depois de levar um cruzado de esquerda.
Obviamente que eu não cheguei nesse nível, mas eu entendo o Renato Trezoitão dizendo que quando saiu dessa matrix, ficou com vontade se matar
![]() .A matrix dos relacionamentos nunca pegou. Naturalmente, quando ainda era adolescente, já sabia que as coisas não eram como a maioria achava. Óbvio que me ferrei em algum momento (e não estou imune de me ferrar de novo), mas esse conhecimento natural e inconsciente já me abria os olhos. Quando conheci Alita e a Real, não foi algo que me deixou atordoado, só me confirmou algo que eu já imaginava que acontecia.
Enfim, voltando às situações das obras, quantas vezes nos preocupamos demais com coisas inúteis, enquanto o que realmente é útil está ficando de lado?
Todas as nossas ações – ou a falta delas – terão consequências no nosso presente/futuro.
Por mais que tenhamos justificativas – também conhecidas como desculpas –, a culpa não é de Deus, não é do universo, não é da vida. A vida, inclusive, não nos deve nada.
Vários desses personagens só conseguiram perceber a vida medíocre e miserável que tiveram quando já estavam mais no bico do corvo do que saudáveis. Quando o arrependimento bate à porta já é tarde demais. A vida já passou e o tempo é curto.
Um final ao estilo Gregor Samsa e Ivan Ilitch é nossa responsabilidade.
Vou aproveitar as reflexões e tentar vigiar mais.
Deixo uma última citação:
Citação:E as coisas que vos digo, digo-as a todos: Vigiai. – Marcos 13:37 RE: Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - Matuto Paulista - 19-05-2024 Mais um post denso que consegue ao mesmo tempo ser um conforto e uma voadora no peito. @"hjr_10" , me identifiquei com cada ponto que mencionou, mesmo sem ter os livros citados como base (fiquei interessado em ter essa experiência literária, dado o entusiasmo das suas menções). Quando descobrimos (ou confirmamos, que seja), as questões sobre a matrix romântica, em um primeiro momento, pensamos ter adquirido um poder divino e que "tudo faz sentido agora", .É simplesmente humilhante com o passar do tempo perceber que até mesmo este "estágio", nada mais é do que acabar de sair da fraldas e da infância emocional. LITERALMENTE o buraco é mais em baixo A questão sobre a matrix fiduciária que já foi levada à superfície TANTAS vezes, principalmente pelo @Trglodita, foi TAMBÉM a pancada mais recente que tomei! Realmente, só é possível se sentir um idiota por não ter se dado conta disso antes .Claro que diferente dos personagens citados, não descobrimos "tarde demais". Temos trabalho duro a realizar. Costumo pensar que estes esclarecimentos também, abrem espaços em branco em nossas vidas, prontos para serem preenchidos com ações lastreadas pelos novos conhecimentos, isso traz entusiasmo mesmo a esta altura do campeonato. É uma forma de enxergar as coisas também. Parabéns, mais uma vez, pela reflexão AUTORAL referente às obras citadas, confrade. Seus textos são um dos maiores incentivos à leitura no LR. RE: Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - Darien Gordon - 19-05-2024 Gostei bastante das recomendações, principalmente do primeiro livro. Já coloquei na minha lista de leitura desse ano. Obrigado, confrade! RE: Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - Trglodita - 19-05-2024 Todos os que evoluíram já se viram nesses personagens, ou ainda se vêem. A matriz fiduciária é mais dolorosa, descobrir que é um escravo a tantos anos, e que será por mais alguns é bem intragável, além disso, todos sabem que a liberdade financeira promove todas as outras. "Sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar." 1 Pedro 5:8 RE: Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - Libertador - 23-05-2024 Eu li quase todos esses livros, com exceção apenas do Flores para Algernon. E o livro do Ivan Illitch e da Metamorfose estão entre os meus livros favoritos já lidos. Todos eles sofreram algum tipo de alienação da sociedade, seja voluntária ou não e cada um lida de um jeito diferente com isso (as 12 camadas da personalidade de Olavo). O Gregor é alienado físico e emocionalmente da sociedade e da família de forma involuntária por conta da sua nova forma física e o Charlie por conta da sua inteligência. O Ivan vai se isolando gradualmente conforme sua doença avança porque percebe que ninguém compreende sua dor e angústia. Já o homem do subsolo se auto-isola, rejeitando a sociedade e suas normas. Sua alienação é tanto auto-imposta quanto resultante de seu desprezo pelos outros (algo que afeta mais diretamente os realistas). É interessante que todos eles passam por uma transformação pessoal significativa: Charlie e Gregor sofrem transformações físicas, e Ivan e o Homem do Subsolo experimentam transformações filosóficas e emocionais. Sobre as 12 camadas da personalidade, dá pra ver que cada um deles fica preso em uma das camadas no seu livro, assim como aqui no fórum é curioso de se reparar que tem realistas que ficam presos em camadas específicas também, chegam em um ponto e nunca mais evoluem daquele ponto em diante. O link das 12 camadas: https://olavodecarvalho.org/wp-content/uploads/2017/06/As-12-Camadas-da-Personalidade.pdf Charlie Gordon, conforme descrito no tópico fica preso na camada da afetividade. Após a cirurgia, se torna altamente inteligente, mas sua capacidade de formar e manter relações afetivas profundas continua prejudicada. Sua transformação intelectual não resolve suas necessidades emocionais, deixando-o preso em uma busca incessante por aceitação e amor genuíno. Gregor Samsa, fica preso na camada da sensibilidade porque depois que vira inseto ele desenvolve uma sensibilidade extrema tanto física quanto emocional. Ele fica preso nessa camada porque fica incapaz de superar a dor e o sofrimento causados pela sua nova condição e pela rejeição de sua família. Ivan Ilitch fica preso na camada da atenção, já que ele fica obcecado com sua dor e sua condição terminal, direcionando toda sua atenção para esses aspectos de sua vida. Ele fica fixado na sua doença e sofrimento o que impede que ele encontre paz ou significado além de sua situação imediata. Homem do Subsolo fica preso na camada do subconsciente. Fica dominado por traumas, arrependimentos e desejos reprimidos. Sua incapacidade de se libertar dessas forças internas o mantém em um ciclo autodestrutivo e de auto-análise obsessiva, impedindo qualquer progresso significativo em direção à individuação. Vale lembrar que, segundo o Olavo de Carvalho e o Ítalo Marsili quase todos os bonobos médios ficam presos A VIDA INTEIRA nas camadas afetividade e sensibilidade, nunca saindo desses pontos, impedindo o desenvolvimento pessoal pleno. A título de curiosidade segue abaixo o que isso significa estar preso em cada uma das duas na prática: Afetividade: Ficar preso nesta camada significa que a pessoa está excessivamente focada em suas próprias emoções ou nas emoções alheias, muitas vezes à custa de uma perspectiva mais ampla e racional sobre a vida. Pessoas presas na camada de afetividade podem ter dificuldades em tomar decisões racionais, ser excessivamente dependentes emocionalmente de outras pessoas, e encontrar dificuldades em se relacionar de maneira saudável. Sensibilidade: Estar preso nesta camada implica uma hipersensibilidade a críticas, ambientes ou experiências, levando a reações exageradas e, muitas vezes, irracionais. Indivíduos que ficam presos na camada de sensibilidade podem sofrer de ansiedade elevada, estresse crônico, e dificuldade em lidar com situações adversas de maneira equilibrada. RE: Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - Wissen - 30-05-2024 Vou indicar um ensaio da Revista Unamuno nessa linha: https://unamuno.com.br/o-belo-e-o-sublime-mes-do-subsolo/ Todos os personagens desse "subsolo" sofrem no mesmo cenario: por possuirem algum talento eregiram expectativas para si proprios, se nao inalcansaveis, exageradamente distantes e, sem o impeto e o esforco necessario pra conclusao delas, acabaram caindo na melancolia de uma vida que poderia ter sido e nao foi, numa lesao irrevesivel da vontade que, de tao exigida sem proveito, acaba definhando e atrofiando irreversivelmente. RE: Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - Ale - 01-06-2024 Caralho! Baita texto e tópico! Desse ainda não li Flores Para Algernon e Memórias do Subsolo (o que agora desejo reverter com premência!). Muito foda ver um tratamento tão atencioso com essas obras gigantes! RE: Reflexões acerca dos homens desprezados do subsolo - A6M Zero - 02-06-2024 Primeiramente, parabéns pelo tópico. Li por cima, vou ler com mais calma e refletir sobre. Nunca li os livros mencionados, mas o que mais me chamou a atenção, o homem do subsolo, não sei se é algo irônico ou alguma consequência da nossa subconsciência, mas o que podemos observar é como cada vez mais 'homens do subsolo' estão surgindo e como isso pode ser algo benéfico ou maléfico, tudo dependerá como estes serão encaixados nas engrenagens da sociedade e da matrix. A matrix fiduciária é de longe a mais revoltante, se não até mais que a dos relacionamentos, essa primeira opera em conjunto com a matrix política que parece ser uma verdadeira hidra. Quero muito fazer um tópico a respeito de como se libertar da matrix fiduciária, pretendo escrever algo quando tiver um tempo. |