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A Destruição da Cultura - Partes 1 e 2 - Versão para Impressão

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A Destruição da Cultura - Partes 1 e 2 - Temujin - 10-02-2020

Por Ludvig Sunström, o original está aqui.


Tradução por Daniel Castro. 

(Globalização, Cultura Pop, Emburrecimento, Sistema Escolar Fracassado, e Democracia Participativa)
[Image: Popular-Culture-joker.png?resize=300%2C332&ssl=1]
Se pornô fosse permitido no YouTube o próximo presidente seria uma estrela pornô.

Se a canção tema daqueles que moram na homeostase é Girls Just Want to Have Fun, o tema daqueles que a superam é Push it to the Limit.

“Você observará preocupado o quanto demora para uma verdade útil ser conhecida e existir, antes de ser geralmente aceita e praticada.”
[color=var(--color-text)]  
[color=var(--color-text)]~Benjamin Franklin[/color]
[/color]

“Infelizmente conhecimento correto e princípios sólidos não são suficientes. Uma verdade plácida pode ser eclipsada por uma falsidade excitante.”
~Alduous Huxley
 
Parte 1: A Cultura está se Aprimorando?
Um dos críticos mais interessantes da cultura popular é Alan Moore.Você pode conhecê-lo como o criador de Watchmen. Numa entrevista que assisti no YouTube, ele disse:

Citação:Nós tínhamos a Beggars’ Opera (NT.: Ópera do Mendigo) em 1910.  Em 1969 tínhamos o filme Perfomance de Donald Cammel. Então tivemos o Harry Potter de JK Rowling no começo do século XX (NT.: sic, certamente o autor quis dizer século XXI). Todos os três foram grandes e importantes eventos culturais em suas épocas.
Se você colocar isso em um gráfico, a linha não está subindo. Eu penso que é um comentário justo dizer que nossa abordagem à cultura na corrente principal se degenerou. Os valores que as pessoas costumavam colocar num trabalho de arte, se erodiram.

Em outra entrevista (escrita), quando perguntado sobre filmes de super-heróis, ele respondeu:

Citação:Eu penso que, esta adoção de personagens que eram inequivocamente infantis quando de sua criação em meados do século XX parece indicar um afastamento das complexidades da existência moderna. Parece a mim que uma parcela significativa do público, tendo desistido de entender a realidade na qual ele vive realmente, raciocinou que ao menos ele poderia ser capaz de entender os universos espalhados e sem sentido, mas ao menos finitos apresentados pela DC ou Marvel Comics.

Eu gosto de Alan Moore, mas penso que ele está sendo um pouco duro com a DC e a Marvel.

Eu cresci lendo revistinhas como Homem-Aranha, e assisti os desenhos dos X-Men na TV.

Quando leio o Homem-Aranha agora, eu sinto um pouco de nostalgia, mas não fico excitado. Eu não revi os desenhos dos X-men, então eu não sei. Mas eu posso dizer o seguinte: meu desenho favorito da infância – O Fantasma – tem durado.

[Image: The-Phantom-is-not-part-of-pop-culture.p...C350&ssl=1]
Eu não mantenho uma coleção, mas quando trombo com o Fantasma, eu ainda gosto dele. Por que? Provavelmente porque sua premissa é tão diferente. É baseada em diversos períodos históricos (de modo que você poderia inventar histórias para sempre) e ensina  ao leitor novas ideias e valores sólidos de um modo divertido.

No linguajar do marketing, o Fantasma é o exemplo excelente de um conceito “Sempre-Vivo”. Eu tenho muito respeito pelos criadores do Fantasma, e se eu tiver filhos, comprarei uma coleção grande para eles.
Agora, compare isto à Marvel.

Marvel é parte do império Disney. Disney é uma companhia interessante pelo motivo que ela em quase um monopólio sobre a cultura popular. Nenhuma outra empresa pode ocupar seu papel, pelo menos não rapidamente.
Eu assisti a um entrevista com o CEO Bob Iger, que é brilhante. Ele foi perguntando sobre o filme Pantera Negra (2017) e o que fez aprovar o projeto. Ele disse que olharam três coisas:


  1. Podemos vendê-lo globalmente?

  2. Podemos vender produtos relacionados?

  3. Podemos fazer uma franquia com ele? (filmes, séries de TV, jogos eletrônicos etc.)

A resposta era “SIM”, então eles o fizeram.

O filme Pantera Negra saiu-se bem nas bilheterias. Com um orçamento de $200M e $700M de arrecadação. Não sou um profissional em analisar filmes mas vamos estimar que o lucro líquido foi de $400M. Isto é duas vezes mais que o orçamento – 9 de cada 10 filmes jamais dão lucro – sem contar o lucro futuro baseados nos três mandamentos de Iger para a Disney.

Eu imagino que o Fantasma nunca fez muito dinheiro – se fez.

Poderia talvez fazer, mas não existem tendências polarizantes para se capitalizar, nenhuma onda grande para surfar. O Fantasma é sustentado por seu próprio brilhantismo. Não é uma aposta macro; é uma atmosfera insular. Ele vive muito e prospera, mas não se torna viral, Você provavelmente não pode torná-lo um conceito universal. Ao menos não sem tornar a premissa uma história estúpida 1-2-3.

O Fantasma é o exemplo perfeito do que Alan Moore falou quando ele mencionou “mundo infinitos”. O Pantera Negra é uma história legal que atrai pessoas negras. Felizmente, existem muitas pessoas negras no mundo todo que podem se sentir inspiradas por tal filme. A quem o Fantasma atrai? Não há um grupo alvo específico. É simplesmente uma revistinha ótima que tem o objetivo de ensinar e durar.

Parte 2: A Cultura não se Aprimora Gradualmente
A cultura se aprimorou entre os anos 1000 e 2000?
Sem dúvida.

Não é algo que possamos medir facilmente, mas uma vez que mais pessoas se matavam sem boas razões então, eu tenho de dizer que sim.
Isto significa que a cultura está paulatina e gradualmente melhorando a cada ano?

NÃO!

Isto sequer é uma comparação justa a se fazer.

A cultura popular não existia antes dos meios de comunicação em massa surgirem. Sempre existiram esferas da sociedade que eram intelectual e moralmente superiores ao resto. Conhecimentos especializados existiam, mas permaneciam isolados, ensinados somente na forma orgânica mestre-aprendiz. Então você tinha o Estado e a Igreja definindo o sistema de crenças, e tradições culturais para o resto da sociedade; isto era o equivalente da cultura popular.
E as pessoas espertas ficavam fora dela.

Embora o globalismo e o consumismo só têm poucas décadas de existências, a degradação da cultura e nações têm mais tempo.
Uma das melhores explicações para como isso acontece é o padrão histórico de que uma nação nasce estoica e morre epicurista.

Uma Nação Nasce Estoica e morre Epicurista
O falecido e grande historiador Will Durant disse que uma civilização não é conquistada até que seja destruída desde dentro.

Citação:“Nós estamos abandonando o estudo de como os Gregos e Romanos prevaleceram magnificamente num mundo bárbaro; o estudo também, de como esse triunfo terminou, como a preguiça e a moleza finalmente os levou à ruína, No final, mais do que a liberdade, eles queria segurança, uma vida confortável, e eles perderam tudo.”
—Edith Hamilton, Historiadora (escrito aos 91 anos de idade)
Citação:“Alguém pode imaginar se uma geração que requer gratificação instantânea de todas suas necessidades e soluções imediatas para os problemas do mundo produzirá algo de valor duradouro. Tal geração, mesmo equipada com a tecnologia mais moderna, será essencialmente primitiva — ela irá se maravilhar com a natureza, e se submeter à tutela de homens da medicina.”
—Eric Hoffer, Filósofo

Todo político ocidental deveria imprimir isso em sua parede.
Outro paralelo histórico pode ser útil–

A Guerra Revolucionária:
A Guerra da Revolução Americana foi deflagrada devido a um imposto de 7% sobre selos. Hoje em dia governos aumentam os impostos em mais de 7% sem que as pessoas sequer batam os olhos. E nós, o povo, aceitamos. Como peões passivos.


O que fez os americanos nervosos o suficientes para arriscar suas vidas lutando contra o Império Britânico? Não lógica fria (“não podemos arcar em dar 7% de nossas rendas”), foi o princípio de que eles tinham o direito sobre seu trabalho.


Foi sua rejeição em aceitar a autoridade de uma burocracia opressiva.


Foi sua rejeição em criar um precedente perigoso na direção da escravização de seus descendentes.
Nenhuma tributação sem representação.


[Image: Pop-culture-is-not-join-or-die.jpg?resiz...C341&ssl=1]

Os americanos mais antigos eram uma geração de indivíduos endurecidos, que vieram de todas as partes. Eles não vieram por um cheque de bem estar social, eles vieram para construir e conquistar. Uma seleção das pessoas mais motivadas, aventurosas, e empreendedoras do mundo. Possivelmente uma pessoa como essa é o equivalente de 2 a 10 pessoas medianas.

Eles não atravessaram o oceano a toa. Especialmente não para serem mandados por alguns burocratas do outro lado dele.
Nas palavras do Pai Fundador John Adams. “Vocês nunca saberão o quanto custou à minha geração preservar sua liberdade. Espero que façam bom uso dela.”



RE: A Destruição da Cultura - Partes 1 e 2 - Scant - 11-02-2020

gostei

a civilizacao decaiu desde a antiguidade, mas no geral ainda é melhor hoje que nessa época

acho que a elite decaiu e isso sim piorou bastante as coisas


RE: A Destruição da Cultura - Partes 1 e 2 - Temujin - 31-10-2020

Partes 3 e 4: https://nuvemdegiz.wordpress.com/2019/12/12/a-destruicao-da-cultura-partes-3-e-4/

Parte 3: A Cultura Popular é Cheia de Falsidades e Falsos Ídolos:
Em seu livro Consilience (1998), E.O Wilson nervosamente denunciou esquerdistas radicais em universidades, e pós-modernistas corrompendo pesquisas acadêmicas.

Agora, mais de 20 anos depois, todo mundo fala sobre isso. Por que demorou tanto? Precisaram as pessoas ouvir sobre isso de Joe Rogan?

Coisas ruins podem ficar não detectadas ou não checadas por um loooongo tempo na cultura popular. Por quê? Porque os incentivos para pará-las não são suficientes (muito dinheiro a se fazer com uma grande mentira, nem tanto ao se provar que algo está errado; especialmente se você estiver colocando sua reputação em jogo, e houver lobistas cujo trabalho é destruí-lo).

A cultura popular provavelmente irá tender para o ruim, errado, e depravado – do que para o que pode ser considerado “bom” ou virtuoso.

Sempre é necessária uma massa crítica para aumentar a percepção sobre mentiras e concepções falhas fora de um minúsculo grupo de pessoas “que sabem”, fora do qual mudanças positivas podem emergir.

A cultura popular nunca será ótima, ela não pode ser policiada.

Existem retardados demais.

A Cultura Popular é um Lodo Lamacento que se Move Devagar

A cultura popular tem seus defeitos.

De fato, não consigo pensar em nada bom sobre ela agora.

A cultura popular é uma repetição das bobagens e histórias mais básicas.



Isto é evidente pela repetição de notícias chocantes por âncoras e fofocas mundanas por anfitriões de talk shows sentados em seus sofás.

De algum modo, as pessoas são condicionadas a acreditas que tais tópicos valem a pena serem mencionados. De novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo.

Mas o que é pior que isto? Aquilo que não é mencionado.

–Desde os tópicos censurados devido ao politicamente correto, a opiniões editoriais, e interesses financeiros. E recentemente: “Deplataformização”

Mas você sabe o que é ainda pior que isto?

A inabilidade da cultura popular em se adaptar a fatos cientificamente provados e dicas úteis baseadas num grande corpo de pesquisa.

A cultura popular tipicamente está 100 anos atrás do pensamento dos pioneiros, e algumas décadas atrás das pesquisas mais recentes dos especialistas.

Por que tão devagar?

Quando alguma epifania finalmente chega à corrente principal, ela geralmente é simplificada até não ser reconhecível .

O que podemos aprender com isso?

Aquilo que chega à corrente principal da sociedade, até a cultura popular, nunca deve ser tomado pelo valor de face. Devemos assumir que foi colocado ali por interesses especiais e que é perigoso para a pessoa comum; o indivíduo ingênuo que leva sua vida de um modo despreocupado, sem saber que está pegando emprestado seu senso de valores de estranhos perigosos.

A cultura popular é cheia de falsidades.

Aqui vão algumas:

Indulgências nobres se infiltram na cultura popular e permanecem como dogma (Lembrem-se da citação de Huxley da parte 1)
A influência atropeladora dos consumidores femininos é tipicamente minimizada ou sequer mencionada no debate público
A mídia de massa tem seus próprios vieses e incentivos. Eles fazem, dizem e cobrem aquilo que recebe atenção e faz dinheiro; não aquilo que é útil ou verdadeiro. As mídias sociais não são excluídas disso; elas somente fazem isso de um modo diferente. Eu não vou elaborar (e você provavelmente sabe disto por experiência pessoal de qualquer modo
Longa lista na Wikipedia sobre crenças errôneas (em inglês)


Todos nós temos nossos hobbies e campos de interesse especial.

Quando foi a última vez que a mídia da corrente principal cobriu algum de seus tópicos favoritos de uma maneira justa ou completa?

Quando eu era criança, uma das poucas coisas nas quais eu tinha um conhecimento superior eram artes marciais, jogos eletrônicos e mangás. Um dia quando eu tinha cerca de 14 anos, numa sexta-feira, eu comi um grande bolo de chocolate e assistia TV. Então passav um programa sobre os garotos mais geniais da Suécia (similar a Quem quer ser um Milionário, porém com diversos concorrentes). Os garotos podiam escolher um tópico e o anfitrião fazia perguntas a eles. Um cara, que ganhou o programa, selecionou Dragon Ball como seu assunto. Eu fiquei tão enciumado. (“Por que este garoto na TV é um gênio. enquanto eu sei todas essas respostas de cabeça, e tenho notas medianas.”)

Teste de Tornassol:

O melhor exemplo é quando um fórum ou comunidade ficam muito conhecidos, e de repente todos os ignorantes chegam numa velocidade rápida e diluem a qualidade ao ponto de que você não quer mais gastar seu tempo ali.


Parte 4: A Cultura Popular Não está Melhorando
Isto tem sido corroborado por professores e acadêmicos do sistema educacional. O historiador e crítico cultural Christopher Lasch escreveu em Culture of Narcissism de 1979 que:

Um estudo após o outro documentam a gradual declínio das habilidades intelectuais básicas. Em 1966, formandos do ensino médio conseguiram em média 467 pontos do teste de aptidão escolástica – dificilmente motivo para comemorações. Dez anos depois eles somente conseguiram 429 pontos…

Tais estudos meramente confirmam o que todos sabem que foi ensinado aos estudantes do ensino médio ou faculdade nos últimos 10 a 15 anos. Mesmo nas melhores escolas do país, a habilidade dos estudantes em usar sua própria língua, seu conhecimento de línguas estrangeiras, seu raciocínio, seu conhecimento de informações históricas e de clássicos literários, todos sofreram uma contínuo processo de deterioração… você não pode esperar tanto de um estudante quanto poderia esperar 15 anos atrás… não deveria nos surpreender que os americanos estão se tornando cada vez mais ignorantes sobre seus próprios direitos enquanto cidadãos.

De cada 8 adolescentes de 17 anos, um acredita que o presidente não tem de obedecer à lei.

Metade daqueles com 13 anos pensam que a lei impede qualquer um de começar um novo partido político.

Não que o presidente seja fora da lei, ou que partidos políticos sejam proibidos, mas a alfabetização diminuiu.

Um professor de Deerfield, Illinois, diz que, “Os estudantes têm o costume de serem entretidos. Eles se acostumaram com a ideia de que se estiverem o mínimo entediados, eles podem apertar o botão e mudar de canal.”

–Este professor disse isso há quase 40 anos!

O vício em dopamina somente ficou pior.



Batalha de Distopias – Nocaute no assalto final: Huxley vence Orwell

Leve qualquer coisa muito longe e ela se torna algo ruim.

Seres humanos são programados para responder a recompensas e punições, prazer e dor.

Neil Postman acertou em seu prefácio de Amusing Ourselves to Death:

Estávamos de olho em 1984. Quando o ano veio e a profecia não, americanos pensativos cantaram suavemente em sua própria ode. Nós tínhamos, ao menos, não tido sido visitados por pesadelos Orwellianos.

Mas havíamos esquecido que ao lado da visão sombria de Orwell, havia uma um pouco mais antiga, um pouco menos conhecida, igualmente aterradora: O Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Ao contrário da crença comum, Huxley e Orwell não profetizaram a mesma coisa. Orwell alerta que nós seremos dominados por uma opressão imposta externamente. Mas na visão de Huxley não é necessário um Grande Irmão para privar as pessoas de sua autonomia, maturidade e história. Conforme ele imaginava, as pessoas irão amar sua opressão, adorar as tecnologias que destroem suas capacidades de pensar.

O que Orwell temia eram aqueles que baniriam livros. O que Huxley temia era que não haveria razão para banir um livro, porque ninguém iria quer ler algum. Orwell temia aqueles que nos privariam de informações. Huxley temia aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade nos seria escondida. Huxley temia que a verdade seria afogada em um mar de irrelevância.

Orwell temia que nos tornaríamos uma cultura cativa. Huxley temia que nos tornaríamos uma cultura trivial, preocupada com o equivalente a feelies, o orgy porgy, e ao centrifugal bumble-puppy (NT.: no livro, este são os termos para sentimentos, orgias e um jogo de bola infantil, respectivamente). Conforme Huxley assinalou em Regresso ao Admirável Mundo Novo (NT.: um livro de 1958 detalhando como a sociedade real havia se direcionado para sua visão nos 25 anos entre a publicação do romance original), os libertários civis e racionalistas que estão sempre alertas para se opor à tirania “falharam em levar em conta o apetite humano quase infinito por distrações.”

“Pessoas irão amar sua opressão, adorar as tecnologias que destroem suas capacidades de pensar.”

“A verdade seria afogada em um mar de irrelevância.”

“Apetite humano quase infinito por distrações.”

Mídias sociais, mídias sociais, mídias sociais. Divirta-se!

Em 2019, Huxley é o vencedor decisivo.

Isso é exatamente o que escrevi em Breaking Out Of Homeostasis!

Porém, Neil Postman coloca isso em palavras muito melhor do eu jamais poderia. Faça um favor a si mesmo e leia a primeira metade de Amusing Ourselves to Death.

O estado ditatorial de Orwell vs a sociedade do prazer de Huxley: Ambas ideias eram igualmente fantásticas na época de suas publicações (NT.: respectivamente 1949 e 1932. Ainda assim, existia um precedente, o livro Nós de Yevgeny Zamyatin, publicado em 1924, e que combinava elementos de ambos livros (como o Benfeitor, precursor do Grande Irmão, e os bilhetes de sexo, precursores da orgy porgy), e os influenciou). Então porque Huxley venceu? Por conta de computadores, smartphones, mídias sociais, e o que quer que venha por aí (veja o texto Next big evolutionary mismatch).

Eu tinha uma mente aberta sobre isso, agora não tenho mais.

É muito mais fácil viver vicariamente (como um espectador) do que tomar medidas drásticas para mudar sua vida.

Seres humanos conseguem detectar facilmente injustiças absurdas (é programado em nosso DNA) mas seres humanos mal podem detectar mudanças incrementais de estimulação.

É uma pena que Neil Postman esteja morto. Eu adoraria conversar com aquele homem.

Um bilionário da mídia resume os últimos 20 anos

Michael Bloomberg defies pop culture - as an entrepreneur and as Mayor of New YorkMichael Bloomberg tinha uma carreira forte em Wall Street, culminando como um parceiro do Solomon Brothers, e então foi demitido. Após isto, ele usou suas economias para começar a Bloomberg, que se tornou a fornecedora #1 de serviços premium de informações para profissionais das finanças. É um dos negócios mais lucrativos do mundo e o tornou um dos indivíduos mais ricos do planeta. Ele então se tornou prefeito de Nova Iorque entre 2002 e 2013.

Em sua biografia de 1998, Bloomberg critica o sistema educacional americano:

Olhe para nossas escolas para mais das promessas fracassadas da tecnologia. Todos pais querem que seu ou sua criança saiba sobre computadores. Todos acreditamos que aqueles sem PCs no ensino fundamental estão condenados a uma vida de pobreza e analfabetismo, então gastamos milhões para equipar as salas de aula com computadores e acesso à internet.

Os resultados? Mesmo com todas as compras de computadores em nossas salas de aula, nossas crianças não leem bem, tem um senso de perspectiva pior da história, conhecem menos geografia, possuem menos habilidades matemáticas, e têm exposição reduzida a grandes conquistas literárias e culturais da humanidade. (“Por que me preocupar em aprender isso? Eu procuro quando precisar,” um garoto poderia dizer. “Esqueça ortografia, eu tenho um corretor no meu processador de texto.” “Matemática? As calculadoras são para isso.”) Em termos de hábitos de trabalho e habilidades sociais, estamos criando um desastre. Não apenas Johnny não consegue ler, ele não consegue falar com boa gramática também.

Escrito quase 20 anos atrás, poderia bem ter sido escrito hoje.

Bloomberg estava correto, e em 2019, nós estamos vivendo o desastre. É um dos principais motivos pelos quais as pessoas são tão intolerantes e têm pouca capacidade para a ambiguidade. Muitas pessoas são cognitivamente fracas.

Ao invés de se esforçarem para serem mentalmente fortes, elas sucumbem à homeostase e tendências vitimistas; dando desculpas por sua incapacidade de lidar com um mundo de complexidade crescente.

Pop culture burrow head in sand

Ao invés de tentar construir uma visão de mundo mais sofisticada e com nuances, elas optam pela reação instintiva de enterrar suas cabeças na areia. Este comportamento é aceitável em crianças e adolescentes, mas não entre adultos..

E A Democratização da Informação?

Nos últimos anos tem se falado muito sobre como as mídias sociais e a distribuição de conteúdo grátis iriam mudar o mudo. Eu penso que agora podemos seguramente concluir que isto não aconteceu conforme os idealistas esperavam.

Algumas poucas pessoas estão se tornando mais espertas e tendo mais oportunidades, enquanto a maioria delas parece ter se tornado mais burra e habituada; mais isolada em seus próprios conhecimento e percepção.

A disseminação rápida de informação não resultou numa população mais informada ou educada.

Ao invés disso, ela levou a uma disseminação mais forte de informações enganosas, propaganda, e separação por status e aumento da inveja. Mentalidade de turba.

A maioria das pessoas não procura ativamente por novas ideias fora de seus hobbies ou esferas de conhecimento. Elas são mais propensas a fazer mais do que estão fazendo, permanecendo no domínio em que são mais confortáveis. Seja bilhares, filmes, pornô, Facebook, Twitter, química ou negócios.

Faz sentido.

A pessoas agora tem meios mais sofisticados para se educar e entreter. Isto levará a uma população melhor educada?

Eu sinceramente duvido, mas poderemos checar daqui a 20 anos.

É como o teste do Marshmallow sob efeito de esteroides. Pessoas podem se engajar em dramas estimulantes para ativar rapidamente sua dopamina, ou elas podem fazer algo que produza mudanças duradouras.

* * *

Você quer se manter a par da cultura popular? Você tem algum incentivo para fazer isso? Snoop Dogg tem.


RE: A Destruição da Cultura - Partes 1 e 2 - Wild - 01-11-2020

Texto muito bom no geral, mas que precisa ser propriamente adaptado para o contexto mais localizado, com referências menos ao próprio blog e termos do autor original, para que tenha um maior aproveitamento. Mas como tradução está muito bom o trabalho. Falo isso pois a pessoa tem que ter o trabalho cognitivo de filtrar e ligar as referências, pra gente boa parte delas não são óbvias.

Mas vamos lá...

O texto equaciona o declínio cultural como uma constante a povos e civilizações que simplesmente se acomodaram ao longo da história (o velho provérbio "Homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis geram homens fracos"). Acredito que isso seja meio que um consenso por aqui.

Antes de responsabilizar fatores externos, o texto fala primeiro da degradação interna de uma civilização, que é o que chamamos de destruição cultural aqui. E muito dessa é ativa, possui agentes bem definidos, muito dinheiro sendo gasto para que isso aconteça. Ao menos uma vez espero que todo mundo aqui já tenha ouvido falar na Escola de Frankfurt ao menos uma vez...

No fim isso cai na também citada pelo texto equação da liberdade vs. conforto. Hoje em dia estamos cada vez mais abrindo mão das nossas liberdades em troca de prazer e sensação de conforto. Troca o conhecimento pela facilidade de obter informações. Prefere ao invés de dominar (e todo o trabalho que decorre se fazer disso responsavelmente), serem dominados. Governos autoritários parecem especialmente encantadores para algumas pessoas, pois tira completamente as responsabilidade do individual de agir e pensar por si mesmo, todo mundo vive numa mente de colmeia.

Se pode se trocar liberdade por conforto e segurança, essa eu vou deixar para vocês. É inegável que na corrida desesperada pela sobrevivência, qualquer coisa que alivie o pesado fardo existencial ou ao menos nos distraia dele, costuma ser bem vindo. A sobrevivência é uma equação complicada onde queremos sempre conseguir o máximo com o mínimo gasto energético, pois desperdícios costumam significar morte em tempos de vacas magras. Por isso vivemos numa sociedade hedonista onde o rush de dopamina é a norma e o importante é "ser feliz agora", do que batalhar e fazer sacrifícios para um futuro melhor.

Só que isso apenas nos torna mais moldáveis aos grandes projetos de poder, que tira nossas individualistas e capacidade de reação, para sermos massa de manobra, força de trabalho descerebrada que visa apenas a manter os privilégios da casta dominante. Que sem surpresa nenhuma coincide em boa parte com "O Partido", justamente aquele pensamento que jurou te proteger de relações sociais abusivas onde você é dominado e oprimido, é sem ironia o modelo de sociedade onde você MAIS É dominado e oprimido, e ainda vai achar isso maravilhoso.

Se formos seguir pelo caminho da liberdade há riscos, há conflitos sem cessar, embates de interesses e opiniões que ninguém poderá filtrar. Será uma selva, uma selvageria, afinal os humanos que são realmente racionais e civilizados são bem poucos. Mas é também justamente o único caminho que faz a gente crescer, nos fortalece, o caminho que realiza todos as potencialidades da alma humana. Mas é aquela coisa, quem quiser lutar pelo lado da liberdade vai ter que estar assumindo os riscos, vai ter que estar preparado para morrer por isso, abrir mão da sua vida para que outros desfrutem dessa liberdade.

Quem dos nossos recém-chegados homens, nossos queridos juvenas, está pronto pra isso? Nessa sociedade cada vez mais feminilizada (sendo que as mulheres são justamente guiadas instintivamente pelo que pode ser providenciado a elas enquanto os homens de verdade ao que eles podem fazer por si próprios?)

Há outro vieses pra lidar, como a relativização e desconstrução e como isso é daninho para a cultura, as ideias e um atentado contra a inteligência humana em geral, mas isso vou comentar em outro momento. Força e honra,


RE: A Destruição da Cultura - Partes 1 e 2 - Temujin - 01-11-2020

@Wild Esses problemas de adaptação cultural nos textos são sempre complicados. Na maior parte das vezes, coloco notas explicativas. Nesse texto em questão, ele fala sobre uma cultura global e não senti tanta necessidade, disso, mesmo ele falando de pessoas desconhecidas por aqui como Michael Bloomberg.
Seus pontos sobre entregar a liberdade são bons para reforçar os do texto, o autor cita tanto Amusing Ourselves to Death (que eu li, é mais uma análise de como a televisão mudou o discurso público na verdade do que uma comparação entre as grandes obras distópicas) quanto Admirável Mundo Novo.


RE: A Destruição da Cultura - Partes 1 e 2 - Wild - 08-11-2020

Não há problemas na tradução, muito pelo contrário, está ótima e dificilmente eu faria igual.

Eu só noto que há essa diferença cultural, principalmente quando eu pego algum texto do Roosh ou do Tomassi pra ler.

Deve ser por isso que levar uma obra como NA pra fora dê tanto trabalho.

O tema é realmente relevante e não há muita leitura nacional a respeito. Agradeço pela contribuição super válida!