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Versão completa: [Os Doze Trabalhos] O Sétimo Trabalho: O Touro de Creta
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[Os Doze Trabalhos] O Sétimo Trabalho: O Touro de Creta
por DiomedesRJ


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O mar da Grécia enchia o nariz de Hércules com o seu odor, enquanto seu pequeno barco o guiava à caminho do Sétimo Trabalho.

Desta vez, o Arauto de Euristeu o remeteu para a Ilha de Creta, onde dizia-se que um enorme touro branco pertencente ao Rei Minos, tinha se tornado furioso e passado a ameaçar vilas e aldeões. Sua missão era trazer o touro vivo até Micenas, para que Euristeu desse a ele o fim que desejasse.

Em seu quarto, pouco depois da partida de Hércules, Euristeu ainda lá estava, apavorado. Juno havia aparecido novamente a ele em sonho, como aquele enorme pavão de olhos de fogo, desprezando-o pelo Filho de Júpiter ainda estar vivo, e anunciando, logo após dizer a seu servo qual seria o próximo Trabalho de Hércules, que agora, ela iria pessoalmente garantir que ele falharia, daqui por diante.

De volta para o semideus, à medida que se aproximava de Creta, o tempo se tornava mais escuro e fechado. Nuvens pesadas e baixas cercavam gradualmente a ilha, como um grande manto cinza-chumbo que caía sobre ela. Quando enfim aportou no Reino de Minos, o dia tinha se tornado noite.

Umas poucas tochas que insistiam em se manter acesas apesar do vento frio, eram as únicas indicações de como chegar até o Palácio de Creta. As ruas desertas, e uma trilha feita de patas enlameadas, madeira estilhaçada, e sangue, cruzando a avenida de cima, até embaixo, mostravam que o Touro havia estado ali há pouco.

Em meio ao caminho, porém, uma voz firme o adverte:

– Você não precisa ir até o palácio, Filho de Júpiter. Minos já declarou que qualquer um que submeta o Touro poderá ficar com ele, embora matar o animal seja punido com a pena de morte. O sangue dos últimos que tentaram ainda está no chão das ruas próximas.

Hércules vê um jovem de corpo bem cultivado, mas de pernas quebradas e mal curadas, lançado a um canto, com uma cuia e uma esteira, denunciando sua condição como um mendigo.

– E quem é que me concede esse conselho tão oportuno?

– Sou Tauro. Fui um criado do Rei Minos, aquele encarregado de cuidar do animal. Se puder me dar algumas moedas, ou ao menos, repartir seu pão comigo, lhe contarei o que sei sobre o Touro Branco.

Após se sentar, repartindo a esteira, seu pão, e uns goles de vinho com o mendigo abandonado, ele lhe contou.

– O animal é fonte de desgraça desde que chegou, Hércules. O Touro foi um presente de Netuno, Deus dos Mares, para o Rei. Eu estava presente quando o animal emergiu do mar em meio a uma cerimônia. No mesmo dia, eu, que sempre cuidei do rebanho real, fui destacado para cuidar exclusivamente dele, até o dia de seu sacrifício.

Ele sempre foi um animal imponente, mas perfeitamente dócil. Cuidei dele, e de todas as jóias e pedrarias com o qual ele foi enfeitado, com o melhor das minhas habilidades. Mas no dia marcado para seu sacrifício, o Rei em pessoa me procurou dizendo que meu ofício agora seria permanente.

– Então, Minos renegou um sacrifício aos Deuses… – disse Hércules, meneando a cabeça.

– Sim. Até então, tudo corria bem. O animal recebia muitas visitas, e era exibido publicamente algumas vezes. Mas ele começou a receber uma visita cada vez mais frequente… a da Rainha, Pasifaé.

Eu a vi à distância, e via o jeito que ela olhava… falava… acariciava o Touro. No início, achei que estava divagando de forma maldosa. Até que fui dispensado do meu ofício por um dia inteiro. Desconfiei, e observei de longe. E eu vi.

Vi uma vaca de bronze, um engenho mecânico como nunca vi antes, ser trazido até a baia onde o Touro vivia. Não sei como ou de que forma exatamente, o Touro Branco a cobriu como se fêmea fosse. No fim do dia, os criados levaram o mecanismo para longe, ele se abriu e…

– E…

– A Rainha saiu de dentro dele. Suada, sorrindo, e com as pernas trôpegas. A própria Rainha fornicou com o presente divino…

No dia seguinte, o Touro Branco havia mudado. Estava raivoso e arisco. Soube que meus auxiliares tiveram medo de lidar com ele, e entrei na baia.

Tauro aponta para as próprias pernas e diz tristemente:

– Ele arrancou contra a porta e contra mim. Saí no último instante, mas ele me pisoteou mesmo assim. Se não tivesse saltado, meu corpo teria sido destruído por ele. O Touro Branco demoliu todas as cercas, e passou a desfechar a desgraça que caiu sobre o povo.

– E quanto a Família Real? – perguntou Hércules.

– O Rei me perguntou o que houve. Contei tudo a ele. No dia seguinte, outros criados me pediram sinceras desculpas, e me trouxeram de maca até aqui, onde estou até hoje, dizendo que o Rei me punirá de morte se eu contasse a qualquer aldeão o ocorrido. A bondade do povo tratou minhas feridas, mas agora, não passo de um aleijado inútil, vivendo da bondade e dos restos do Palácio. Quanto a Minos, nada sei, além do decreto, e que ninguém mais viu a Rainha depois da fuga do Touro.

– Não teme pela sua vida, nobre Tauro?

– Não. Você não é um aldeão, afinal de contas – disse Tauro num arremedo de sorriso – Me ouça, o Touro sempre vai ao mesmo lugar à noite, muito embora agora, com essas nuvens todas, o dia e a noite sejam uma coisa só. É uma construção ainda incompleta, no Sul da ilha. Os que a viram falam de vários corredores e paredes feitas à esmo. Alguns já foram até lá, mas temo que se perderam, pois jamais voltaram.

– Eu lhe agradeço então, pela história, Tauro. E se me permitir, pernoitarei com você hoje.

Hércules contou sobre alguns de seus Trabalhos anteriores para o mendigo, até que o vinho e o sono os fizeram adormecer. Quando Tauro acordou, Hércules já estava pronto para partir, de pé, e dizendo:

– Mantenha seus olhos no porto, Tauro. Pois me verá deixar Creta com o Touro, exatamente por ali.

Antes de descer de volta para a estrada, Hércules enunciou:

– Que os Deuses te acompanhem.

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O Filho de Júpiter seguiu até o Sul da ilha, como Tauro lhe instruiu, até chegar ao estranho local de construção que ele citou.

Umas poucas áreas cobertas, entremeadas de colunas sustentando o nada, e paredes desconexas cobriam vasta porção da terra. O material disperso indicava mesmo que se tratava de construção incompleta, e agora, abandonada. Da mesma forma, as pegadas frescas do Touro, mostravam que ele havia entrado ali, embora a partir de certo ponto, o chão já coberto não denunciasse seu caminho.

Hércules olhou para aquele Labirinto incompleto, e sabia que entrar a esmo só o faria se perder, e talvez, ser pego de surpresa pelo Touro. Sem uma referência, seria suicídio.

Após um pouco de reflexão, Hércules enfim entendeu o que era necessário.

Jogou sua tocha ao chão, deixando que a lama a apagasse. E na mais absoluta escuridão, passou a procurar.

Após algum tempo, o negrume da tempestade que não caía, lhe mostrou. Um ponto de luz, firme como o de uma estrela, estava afastado mas alcançável. Usando a luz como referência, Hércules trafegou por entre as paredes, elevando-se onde era possível, para saber para que lado continuar seguindo.

Após algum tempo, ele podia ouvir um bufar muito próximo, como se estivesse ao seu lado. Era hora de combater.

O Filho de Júpiter virou-se já em corrida, e na primeira curva, viu o Touro e o diamante encrustado em sua testa, perto demais e surpreendido demais para investir. Tomando-o pelos chifres, e depois pelo pescoço, lançou a cabeça do Touro Branco ao chão, forçando-o a ajoelhar. Apenas mantendo-o no chão com sua poderosa força, o semideus disse: “Não vim te ferir ou de ti abusar, Divina Oferta. Também ofertei minha vida em sacrifício. Não tenho medo, e você não deve temer, também.”

O Touro, se acalmando aos poucos, forçou seu pescoço cada vez menos contra Hércules, até se aquietar de vez. Mantendo-o seguro por um dos chifres, Hércules o acariciou por uns momentos, até montá-lo, e dizer: “Está na hora de deixarmos esse lugar de miséria e confusão. Juntos.”

Hércules tocou o Touro em linha reta, fazendo com que as forças deles somadas, derrubassem muros e colunas, até ambos estarem fora do Labirinto.

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Tauro sorriu quando, do alto da escadaria, viu um homem fortíssimo montado sobre um Touro Branco, entrar no mar e nadarem rumo ao continente. Sorriu novamente quando viu o Sol começar a aparecer entre as nuvens. Ajeitando seus parcos pertences, achou o alforje de Hércules com uma porção generosa de suas moedas, e uma mensagem: “Conheci um médico com poderes quase divinos, quando retornava da luta contra a Hidra. Seu nome é Esculápio. Use o dinheiro para alugar um barco e depois uma carroça. Viaje até Epidauro e o procure. Se alguém pode devolver sua saúde, é ele. Cure-se e viva em paz.”

O terceiro sorriso de Tauro foi o mais largo de todos.

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Diante do seu altar particular à Hera, Euristeu nunca foi tão vacilante.

– Se-Se-Senhora do Mundo, Hércules logrou êxito no Sétimo Trabalho. O Touro Branco já está em Micenas. O darei em sacrifício a você, amanhã pela manhã, em sua honra e glória.

Os olhos do pavão de pedra brilharam como rubis, até que ele ouviu:

– IMBECIL!!!

Euristeu caiu de joelhos imediatamente enquanto ouvia a Deusa falar:

– Sacrificar um animal que meu odiado enteado recuperou, significaria dar honra e glória A ELE! E isso é a última coisa que eu desejo! É com essa idiotice que você recompensa quem lhe deu seu Reino? Seu trono? Seus bens? Quem lhe deu TUDO???

O Rei de Micenas apenas abaixou sua cabeça em temor.

– Liberte o animal. Agora ele é manso, embora ainda selvagem. Que outros deem a ele o destino que lhe aprouver. E agora levante-se, Servo. Tenho outro Trabalho que você deve transmitir ao odiado filho de meu amado marido…

Não deixe de ler a explicação do mito no próximo artigo!

Esse tópico é um oferecimento do Guardião e as Relíquias Perdidas.
[Os Doze Trabalhos] Compreendendo o Sétimo Trabalho
por DiomedesRJ

Após o Realista aprender a não conservar apegos mundanos, e a buscar a máxima evolução de suas posses terrenas, ele descobrirá que, a despeito de quantos bens ele consiga acumular para seu conforto, que sempre haverão aqueles que possuirão mais do que ele mesmo. Mas como eles não possuem o seu esclarecimento do que é necessário, e do que é excesso vão, o Sétimo Trabalho lhe revela como lidar com os bens terrenos em um patamar superior.

Todo homem busca para si o máximo dos bens mundanos que puder reunir em torno de si, e em um dado momento, aquele que os busca de forma desordenada, atingirá um patamar que será mais que suficiente para seu sustento. Nesse momento, um Iludido se sente verdadeiramente presenteado pelos Deuses.

No entanto, o próprio crescimento contínuo de sua fortuna e prosperidade exigirá devolver ao mundo uma parte daquilo que ele conquistou (uma fase de perda de gordura, após uma de ganho de massa magra; um investimento de vulto para obter um retorno de maior vulto ainda; a quitação de um imposto, para a manutenção da legalidade de seus bens, entre outros). E nesta etapa, dois erros capitais costumam acontecer, seguidos um ao outro.

O primeiro é a recusa deste sacrifício em prol do desenvolvimento; a segunda está no gasto dos bens excedentes na mera saciedade de seus prazeres.

Nesse momento, o Touro Branco, o Tesouro Sem Preço, se torna uma força destrutiva para a existência dos que cercam o possuidor do bem, ao invés de proporcionar crescimento para si e também para a sociedade que o cerca. E ao se confrontar com a consequência da vida dos Iludidos desregrados, tão invejados pelos Aspirantes desavisados, Hércules se confronta também com sua própria ganância e hedonismo.

A primeira forma de evitar esse desvio de trajeto é simplesmente olhar ao redor.

Aqueles que foram descuidados com o uso de seus próprios bens, e deixaram o mesmo ocorrer por descuido, nos cercam aos montes, aqueles que já estiveram no topo do mundo, acharam que não existia perigo ou cuidados a tomar, e decaíram para as sarjetas do mundo. Suas histórias, para um homem que já despertou para as ilusões do mundo, são o primeiro remédio a tomar para não cometer o mesmo erro que eles.

Com essa consciência, o Realista já pode procurar em si mesmo o que é essencial e o que é dispensável, em termos de gastos. Mas mesmo sem um ego a lhe perturbar a visão, esta não é uma seleção fácil. O mundo nos cerca de armadilhas e informações deformadas múltiplas, que nos fazem acreditar que uma posse é imprescindível para nossas vidas, quando o nunca foi.

No meio desse labirinto imperfeito, mas ainda sim, capaz de conduzir a perdição, só há uma coisa que pode orientar o Realista: a Noção Verdadeira de Valor.

Aquilo que é realmente necessário para se viver, sempre o foi, desde a Aurora dos Tempos, até hoje. Tudo o que é preciso é somar a essas necessidades essenciais, aquelas minimamente pertinentes ao nível de vida que o homem possui no momento. O ego já não é mais atendido: basta que o foco esteja no que REALmente se precisa.

Assim, a Jóia do Touro é vista, e pode-se chegar com segurança até o cerne da questão, e tomando-a ganância interior, distorcida pelo gasto nos prazeres, com a devida firmeza, ela pode ser guiada de forma a se atingir a forma certa de se guiar os bens mundanos.

Com a Noção de Valor conquistada, um Realista está apto a sempre ter o necessário para cobrir suas necessidades, seja ele um homem abastado, ou não – e desta forma, a riqueza jamais o deslumbrará.